Por 120 milhões, eu também gritava

Gente. 120. milhões. de dólares. Foi essa a singela e módica quantia que um anônimo (pessoa física ou jurídica, não disseram) desembolsou para adquirir o quadro ‘O Grito’, do norueguês Edvard Munch. Quer dizer, um dos Gritos, porque existem outros três berrando em museus na Noruega. Esse pastel era o único que pertencia a um colecionador amigo do artista, que deve ter achado por bem passar a tela nos cobres e embolsar o dindim. Fez bem, creio eu. Mas gente. 120 milhões de dólares. Isso dá mais de duzentos milhões de dilmas. É um novo recorde no mercado de leilões de obras de arte. Claro que quem arrematou não está exatamente com o carnê atrasado nas Casas Bahia, mas vem cá, tem zero demais aí, tem não? Pensa bem, imagina a Mega da Virada. Pensou? Agora vende seu apartamento, seu carro, rapa a poupança, bota as joias no prego. Pronto? Pois é, junta tudo isso, mais vale-transporte e ticket-refeição e ainda não dá pra comprar o quadro. Mas ele é bonito, reconheço. Aliás, bonito não; bonito eu acho os jardins do Monet, as cores do Van Gogh, as geometrias do Klee. O Grito é muito interessante. Perturbador. Mas me lembra um pouco umas figurinhas que apareciam em pesadelos quando eu tinha febre alta (o que era frequente), então o preço ficou um pouco elevado demais pro meu gosto para um pesadelo. Acho que a figura no quadro está com as mãos na cabeça e a bocona aberta em total espanto porque tá pensando ‘cestãotudodoooido, 120 milhões de dólares!’. A Europa numa pindaíba de dar dó, a Grécia pensando que 120 quem sabe até dava pra começar a tirar o pé da lama, os espanhóis exportando desemprego e perdendo trabalho também na Argentina e na Bolívia, o Obama com aquele problemão todo que o Dábliubush deixou, aí vem um e compra um quadro assim, sem mais aquela, por 120. Melhor mesmo fazer cara de paisagem e fingir que nem sabe o que está acontecendo, porque se o pessoal da LBV descobre onde é que a grana tá sobrando, vai ligar todo santo dia pedindo doação. Enfim, junto com o valor inquestionável de uma obra dessas, tem também a questão do gosto de cada um, né. É um quadro bacana, uma tela única (quer dizer, ela e as outras três), mas sei lá, gente, são 120. milhões. de dólares.

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18 respostas em “Por 120 milhões, eu também gritava

  1. Imagina o quadrinho na parede em cima do sofá da sala. Aí vem a faxineira, acha que o quadro está sujo e mete uma flanela com veja. ou então o netinho resolve pintar uns bigodes e cílios no gritador, ou corrigir o céu para azul. Sei não, mas eu não queria um quadro de 120 milhões, aliás não sei se eu queria 120 milhões, acho que não dá pra dormir sossegado.

  2. ói.
    é chato ser eu a te dizer isso mas esse seu espanto com os 120 milhões de dólares apenas atesta que vc é pobre. E sem imaginação.
    Teve um prêmio da loteria aqui há uns dois meses que pagou mais de 900 milhões(sim, de dólares), e eu já tinha tudinho planejado para o que fazer com a grana quando botasse as mãos nela, então, 120 milhões nem é algo que me espanta assim…

    • Max, não só sou pobre, como tenho amigos azarados. Se tivesse amigos sortudos ganhando na loteria, talvez sobrasse um troquinho desses 900 milhões de dólares pra mim… Ô vida mais ou menos, viu! 😛

  3. muito legal sua cronica você tratou de um jeito muito divertido esse grande absurdo, eu não gastaria 120 milhões de uma maneira tao tola e Max você nunca viu 120 milhões para dizer se e muito ou poco

  4. “Boquiabertei” pro seu post, não de grito, mas de admiração. Você escreve muito bem, de maneira inteligente, criativa e bem-humorada. Até pagaria 1 milhão para ler seus posts, mas emprestei todos os 120 que tinha.

    • Obrigada, Ana Paula! Tou aqui admirando sua coragem e desprendimento, lá se foram 120? Foi a fundo perdido ou você espera reavê-los um dia? De qq maneira, passe mais por aqui. Dinheiro tem não, mas a gente se diverte cá no blog…
      bjk

  5. Monica,
    Seria difícil encontrar alguém que tratasse de um assunto austero,
    com tamanha objetividade e humor. ainda bem… ou teria um ataque!
    CONCORDO com todos aqui, é ‘EXECRÁVEL’ o modo como se trata
    a verdadeira arte no mundo!

    Arte É atemporal e não se pode auferir, não há preço, portanto!

    Como se o patrimônio resultante de cérebros humanos, pudesse ser ‘mensurado ativo’. Trabalhos de pessoas que não usufruíram nenhum bem com sua arte, ao contrário:
    vimos pessoas como Beethoven literal e vergonhosamente na sarjeta; Van Gogh
    vendeu apenas um quadro e por intermédio de um seu parente;
    Amedeo Modigliani, fez uma única exposição que imediatamente foi acabada
    por policiais franceses, por questões políticas, mas alegando-se atentado ao pudor,
    e vivia pelos bares e cafés com seus croquis ‘mendigando a quem os comprasse’,
    para manter seu aluguel e alimentação, sua frustração o levou ao alcoolismo,
    e seguem-se inúmeras biografias degradantes,
    para que, há dezenas de anos, pessoas possam estar na Forbes
    (a partir de sua criação lógico), e algumas centenas de anos houveram explorações
    por pessoas sem nenhum mérito, nenhum esforço!!!

    ARTE deveria como tudo na vida ser assegurada pela ética, Instituições Culturais confiáveis, mas até os Museus as adquirem pelo ‘último bater do martelo’ em leilões
    na Sotheby’s de Nova York , Christie’s e Sotheby’s em Londres, entre outros.
    E demos graças, porque a partir daí, as obras sobreviveram a vários sinistros.

    “Leilões são uma combinação bizarra de mercado de escravos, pregão, teatro e bordel. Eles são entretenimentos rarefeitos, onde a especulação, o transe e a caçada selvagem fundem-se a um reduto que encena um ritual altamente estruturado, no qual os códigos de consumo e de nobreza são manipulados a olhos vistos.”
    Jerry Saltz, crítico de arte

    O outro aspecto, gostar de… ter preferência por… também igualmente tenho as minhas,
    todos temos, é nosso direito exercer os estímulos de nossa sensibilidade, isto nem se discute.

    Apenas o seguinte:
    é inerente a arte em todos os tempos: através dela (que É documento), podermos pela História ter conhecimento de costumes; comportamentos; situações econômico-políticas;
    da beleza através dos tempos; da saúde, da ciência e sua evolução, de sua precariedade
    à modernidade; da miséria e da pompa; estados emocionais patológicos derivados das guerras e invasões em diversos países; de nativos dos quatro cantos do mundo;
    isto está demonstrado nos vários tipos de arte: literatura, pintura, escultura, desenho,
    a música, cerâmica, a porcelana, as jóias, o mobiliário, fotografia, cinema e por aí vai…
    há muitos pormenores dentro destas sequências.

    Torno a lembrar, segundo Rosália Monteiro, psicóloga transpessoal:
    “Vivências são acervos inalienáveis”
    e se precisam ser transferidos, que o façam com normas de dignidade, se é que existem!

    Pergunto, não a vocês aqui, estamos todos estarrecidos!
    ‘Diante do exposto’… ao mundo mercenário, de marchands inescrupulosos:
    — QUAL… É O PREÇO???

    • O negócio é que a gente nunca sabe o que vai cair no gosto da galera ou não, mas o mercado num minutinho entra em ação para arrecadar. Van Gogh hoje estaria trilhardário, Beethoven dando palhinha no Faustão. Enquanto isso, ‘Ai se eu te pego’ tá bombando nas paradas. Tou aqui imaginando o acordeon do Michel Teló arrecadando horrores num leilão daqui uns 150 anos. Que medão… 🙂

  6. É isto aí Monica,
    você comprova uma realidade!!! é que eu tenho que me conformar,
    não… me adequar, à triste realidade.
    Neste país, não se valoriza professor, técnicos diversos, cientistas.
    Conheço pessoas com Mestrado, Doutorado, destes bem feitos, bem capacitados,
    em áreas conhecidas e outras inusitadas, mas… tanto esforço…
    não está valendo à pena ninguém se qualificar!
    o salário Oh! como dizia Chico Anísio.
    Dá uma pena danada, tanta capacidade desperdiçada!…
    E com ‘uma frase’ sem-noção… o Teló está arrecadando horrores é agora mesmo!
    pergunta o grau de escolaridade dele, mas artista (alguns), jogador e político,
    quem faz é o povo!!!

    Lazer, brincadeiras fazem parte do viver, eu gosto.
    mas, me revolto com injustiças!

    E eu Monica preciso me tranquilizar e não levar nada a sério!
    infelizmente quem paga os impostos indevidos somos nós… daí minha revolta.
    Mas cê tem toda razão. Calma, Nildinha, calma! Imenso abraço.

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