A última dança

Donna Summer, by Joey Vega (copyright)

Minha adolescência e a disco music apareceram mais ou menos na mesma época lá em casa, e o fato de hoje eu estar aqui, vivinha, contando tudo isso pra vocês dá uma boa ideia da infinita paciência e compreensão dos meus pais. Não deve ter sido fácil. Não fui aborrecente-problema – até porque lá em casa não tinha muito clima pra isso, com pai e mãe bem mais tranquilos do que a média da época – mas segui direitinho a cartilha fashion das divas de então e, dentro do que era permitido a uma garota de 13 anos usar, meu guarda-roupa tinha brilho e glamour pra fazer brilhar meu quarto no escuro. Tive a minha cota de meias de lurex calçadas com sandálias de salto alto, saias longas rodadas, calças baggy com suspensórios e, eventualmente, madeixas frisadas artificialmente à custa de trancinhas e secador de cabelo, porque permanente no salão minha mãe não deixava fazer de jeito nenhum – e por isso lhe sou eternamente grata. Assistia à novela Dancin’ Days menos pela história e mais para ficar por dentro dos modelitos da Sônia Braga e da Glória Pires (na época, adolescente que nem que eu), sabia de cor as coreografias do filme Os Embalos de Sábado à Noite e colecionava os LPs (vixe!) lançados pelas discotecas mais badaladas do país. Os anos 80 podem ter sido medonhos, mas desconfio que, de certa maneira, parte da preparação começou com a gente, nos últimos anos da década de 70.

Então vocês podem imaginar como fiquei ar-ra-sa-da quando me contaram da morte da Donna Summer. Porque, gente, ms Summer foi A cara da disco music e, portanto, a cara da minha adolescência. Sim, teve quem torcesse o nariz para sua versão saltitante de MacArthur Park, quem se escandalizasse com seus gemidos e sussurros em Love to Love You Baby, mas na pista de dança a moça reinava absoluta. Bons tempos em que as cantoras não eram turbinadas por peitos de silicone e nem alisadas pela escova progressiva. Nem tudo era perfeito, claro, de quando em vez surgia uma branquela esganiçada como a Tina Charles, fazer o quê, mas ainda assim existia uma batida black do r&b, soul e Motown que era irresistível.

Com a memória seletiva com a qual grazadeus todos nós fomos brindados de fábrica pelo Criador, é possível nos apegarmos somente a grandes exemplos musicais como Donna Summer e convenientemente nos esquecermos de, bem… muita gente que, sabe-se lá como, fez o maior sucesso naquela época. Summer fez a trilha sonora das festinhas de sábado à noite lá em casa (num combo de móveis empilhados num canto da sala pra abrir espaço pra pista de dança, luzes coloridas e som no talo) e das matinês de domingo na discoteca. A última dança acabou saindo mais cedo do que eu gostaria, mas as lembranças de um tempo que foi danado de bom estão aí, inteiras, para ‘forget about the bad times, remember all the good times’.

7 respostas em “A última dança

  1. tb fiquei tristézima qd vi a notícia que ela tinha partido. até pq nem sabia que estava doente e ela ainda tinha tanta vida. por incrível que pareça vi seu show aqui no maracananzinho (desde o primeiro rock in rio eu nunca mais quis ir a shows grandes) mas donna summer não tinha como.. caramba!!que showzaço!!parecia que o tempo tinha parado e todas aquelas lembranças (tipo essas do seu texto) voltaram; o estádio virou uma super “discoteca” rsrs tenho certeza de q da próxima vez que ouvir, em alguma pista, algum som dela vai ser de arrepiar!! essa marcou!
    bjs e valeu pela lembrança
    ana

    • Ei Ana! Sei lá o motivo, mas seu comentário ficou preso na moderação… Só hoje é que eu vi, sorry!
      Nossa, deve ter sido um show e tanto, esses momentos realmente ficam na memória. E ela tinha uma super voz. Imagino que o Maracanãzinho tenha virado uma bela festa! bjk

    • Pois num é? 🙂
      Eu curto a meninada de hoje, não porque o som que eles ouvem seja lá grandes coisas, mas porque sei que, no futuro, o pessoal também vai guardar ótimas memórias. Com sorte, dos músicos certos – o resto vai cair no esquecimento, se Deus quiser!

  2. Grande cantora, grandes músicas, bons e velhos (quer dizer… é… hummmm…) tempos.
    Um talento que fará muita falta nesses tempos de “cantores” fabricados por mesas de som e softwares de edição,e que sequer se arriscam a soltar a voz num programa ao vivo, pois sabem que farão feio. E também não o fazem em shows sem grandes produções, com muito backing vocal, muitos instrumentos, e novamente com mesas de som milagrosas.

    • Sem dúvida! Hoje em dia está super fácil fabricar cantores e corrigir desafinos, erros e falta de gogó. Não é à toa que as Britneys da vida só se arriscam no palco à custa de playback e efeitos de som e luz pra despistar…

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