Tragédias anunciadas

A única certeza que temos é que mais hora, menos hora, vai acontecer de novo. Só vai variar o local – pode ser o Anel Rodoviário, campeão absoluto na categoria, pode ser a saída para alguma estrada, a Via Expressa ou uma avenida movimentada qualquer da cidade – e o número de vítimas, mas vai acontecer. E enquanto os bombeiros cortam pedaços de metal retorcido para retirar as pessoas dos carros e as sirenes e as luzes frenéticas das ambulâncias pedem passagem rumo ao hospital João XXIII, enquanto as vítimas sem gravidade são acudidas pelos paramédicos e confortadas por estranhos, e quem está na região corre para o meio da avenida para ajudar a desviar o tráfego e sinalizar de alguma maneira o acidente logo a frente, enquanto as câmeras de anônimos registram tudo e os celulares enviam mensagens para as redes sociais e os repórteres começam a buscar as primeiras informações, a pergunta que ronda a cabeça de todos é a mesma: como é que isso aconteceu de novo? De quem é a culpa dessa vez? E, como costuma acontecer em tragédias dessa proporção, o punido até pode ser um, mas as responsabilidades certamente são de muitos. Individualmente, os erros talvez não fossem suficientes para causar um estrago; mas foi só dar uma chance deles se juntarem para as consequências serem desastrosas.

Nunca entendi, por exemplo, como neste país cargas pesadas e potencialmente perigosas são transportadas em carrocerias de caminhão abertas. Em caso de acidente, elas obviamente se espalham e atingem muito mais gente. No caso de uma bobina, como no acidente de quarta-feira, ela rola, claro (aula básica de Física). Essa atravessou a pista e foi parar dentro de um posto de gasolina. Fico imaginando se ela tivesse derrubado uma bomba de combustível ou provocado uma outra batida dentro do posto, uma fagulha que fosse e tudo iria pelos ares. Numa das avenidas mais movimentadas da cidade, ao lado de uma escola e de um local onde à noite são realizados shows para milhares de pessoas. O anjo da guarda estava de plantão.

Essas duas bobinas de muitas e muitas toneladas evidentemente não foram parar naquela carroceria sozinhas. No processo, um dos eixos do caminhão ficou com excesso de peso. Se ninguém percebeu na hora, certamente o motorista e o dono do caminhão foram devidamente avisados horas antes do acidente quando, num posto de pesagem, um funcionário aplicou uma multa exatamente por causa disso. Foram autorizados a seguir viagem, alguém do DNIT disse que 20kg a mais não são suficientes para reter uma carga. As três vítimas fatais, esmagadas pela carreta que tombou em plena avenida, certamente discordam.

O motorista, habilitado para conduzir esse tipo de veículo, tinha pouca experiência e fazia sua primeira viagem pelo Anel Rodoviário rumo a São Paulo. O acidente aconteceu muito, muito longe da saída para a Fernão Dias. Ele perdeu a entrada correta e não viu (ou ignorou?) pelo menos outros quatro pontos para fazer o retorno. A circulação de caminhões pesados é proibida na região do acidente, mas a BHTrans, responsável pela fiscalização, só tem agentes a postos até às 20 horas. Nesse horário – e até depois das onze da noite, quando terminam as aulas do turno da noite – uma cidade com mais de um milhão e trezentos mil carros ainda é absurdamente movimentada. Lavar as mãos, dizendo que a tragédia aconteceu fora do horário da fiscalização, não resolve nadinha.

Ignorando ou não as saídas, a verdade é que Belo Horizonte tem um sistema ridículo de sinalização. Tente chegar em qualquer lugar seguindo as placas e você vai rapidamente perceber que elas te abandonam no meio do caminho, como se disessem ‘daqui pra frente você sabe o que fazer, né?’ Sinalização, por aqui, é de dois tipos: inexistente ou ineficaz. Informação para os motoristas tem que ser redundante e começar lá atrás, a quilômetros de distância (e não a algumas centenas de metros ou em cima da tomada de decisão, como muitas vezes vemos aqui). Tem que estar nas placas, no asfalto, tem que avisar o que fazer agora que você passou do ponto, A sinalização existe na saída para São Paulo, mas deveria ser muito mais descaradamente óbvia e repetitiva, tratando os motoristas como se fossem mesmo uns seres idiotas incapazes de ler qualquer informação de primeira.

E havia um motorista. Que sabia que o caminhão tinha sobrepeso em um dos eixos. Que não viu ou ignorou de propósito placas de sinalização, inclusive as que diziam que carretas como aquela não podiam trafegar na região. Que dirigia em velocidade acima da razoável para um trambolho daqueles (segundo ele, porque perdeu freio, embreagem, tudo). Um rapaz de 25 anos – casado e pai de duas crianças, com uma terceira a caminho – que, por burrice, falta de noção ou seja lá o que for, causou a morte de três pessoas que não tinham nada com essa história, e que agora provavelmente vai ser o único a pagar por sua inconsequência.

Tem também o Poder Público, né? Que fiscaliza ‘feito o nariz dele’, como dizia minha mãe. Que não pune todos aqueles que deveriam ser punidos (inclusive os seus próprios). Que não informa, que acha que segurança é uma questão individual, que acha que o que faz já está de bom tamanho. E que só pensa em tomar providências de tragédia em tragédia. Foram vários acidentes graves até que a circulação de caminhões pesados fosse proibida. Agora falam mais uma vez em tirar o projeto de um novo Rodoanel da gaveta, algo prometido desde quando os dinossauros ainda circulavam pelo planeta.

Por último, nós. Nós que pagamos todos os impostos municipais, estaduais, federais, que nos indignamos e compartilhamos nossa fúria nas redes sociais e nos comentários em portais e blogs, que propomos marchas disso e daquilo, que achamos isso tudo um absurdo, mas que ainda estamos a muitos e muitos anos-luz de saber fazer bom uso da nossa cidadania e exigir que tragédias como a da quarta-feira à noite não aconteçam nunca mais por causa de uma sequência tão estúpida de erros.

2 respostas em “Tragédias anunciadas

  1. PAra mim a única maneira de resolver é juntar muita gente….centenas e centenas…milhares…bem que poderia…e fechar o trânsito…queimar pneu…sim, infelizmente acho isso , pois aí que comecar o prejuízo para indústria ou comércio é que a PBH /governo do estado vao tomar alguma providência….mas quem faria parte dessa mobilizacao? todos estao muito ocupados…e mais mortes virao…chegando mais perto de nosso círculo de amizades e família. Deus nos ajude!

    • Essas reações de fechar rua, queimar pneu, fazer barricada, acho que pode até causar um impacto inicial, mas não sei se a longo prazo tem o efeito desejado. São necessárias várias frentes (inclusive essa de povão protestando) para os senhores e senhoras da administração pública saiam de sua zona de conforto. E olha que neste ano teremos eleições municipais… E, mesmo assim, tou achando tudo muito paradão.

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