Inteligentemente incorreto

Quando eu mostrei este vídeo pra minha amiga, ela adorou. Curioso isso, porque essa minha amiga encabeça a lista de amigos que eu tenho que amam e veneram o politicamente correto, e que me acham – embora sejam meus amigos muito queridos – que eu às vezes posso ser uma criatura deverasmente desprezível e sem-coração, desconectada da realidade atual e dos reais anseios dos membros de uma sociedade verdadeiramente igualitária e democrática. Tá. O caso é que minha amiga é ateia e, portanto, as piadinhas de cunho religioso soam incrivelmente divertidas para ela (estranhamente, todas as piadas em torno de temas como feminismo, raça, gênero e outras cositas não conseguem arrancar-lhe nem mesmo um esboço de sorriso.). O que me faz pensar que o politicamente correto é, a bem da verdade, bastante seletivo: se a sátira for sobre um assunto que a pessoa considera risível, tudo bem; mas se for sobre algo que ela considera ‘sério’, aí a conversa é outra.

Ao contrário da minha amiga, eu acho o politicamente incorreto tudo de bom. Primeiro porque, francamente, as piadas são muito melhores. Segundo porque eu acredito firmemente que existe uma linha (tênue, é verdade, mas existe) entre o politicamente incorreto e o ofensivo, e as pessoas estão perdendo a capacidade de distinguir um do outro – isso tanto da parte de quem faz humor como de quem está na outra ponta, rindo. E, ao colocarem tudo no mesmo balaio como ‘ofensivo’, elas passam a reagir apenas de maneira mal-humorada e sim, o mundo fica muito mais chato e perigoso. Nunca fui nem sou a favor da ofensa mas concordo com John Cleese (do Monty Python) e Rowan Atkinson (o Mr Bean), que dizem que ninguém, ninguém mesmo, ou qualquer assunto pode estar acima da sátira e da crítica. Uma sociedade verdadeiramente democrática esculhamba tudo, sem preferência por este ou aquele grupo. O politicamente incorreto é inteligente e te faz refletir; o ofensivo só te deixa puto e mais nada.

E grazadeus ainda existem artistas que sabem muito bem a diferença entre uma coisa e outra. Terry Jones disse numa entrevista que o Monty Python jamais poderia fazer hoje o humor que fazia nos anos 70, porque agora a patrulha iria dificultar as coisas. O australiano Tim Minchin sabe bem como é isso, e fico feliz que ele continue a fazer seu humor, mesmo com os diversos grupinhos bufando no seu cangote. No Natal de 2011 ele se apresentou no programa do inglês Jonathan Ross, tocou uma musiquinha muito fofa e bem humorada (tá, comparando Jesus a Woody Allen, Super Homem, zumbis, dragões de Komodo e mais um tanto de coisas) e cadê que ela foi ao ar? A direção do canal achou por bem barrar, já antevendo a confusão. Por sorte, Minchin tinha uma cópia, jogou no YouTube e o resto é história. Mas o filho do Chefe não é seu único tema, embora, como bom ateu, ele adore pegar no pé das religiões. Seu humor tem munição suficiente para detonar temas como racismo, papais desesperados tentando fazer o bebê dormir, amor à primeira vista, casamento e sim, a galera que se diz super engajada. No palco, Minchin está sempre descalço, com os olhos muito pintados (diz que é porque, estando geralmente ‘preso’ ao piano, as expressões do rosto tornam-se particularmente importantes) e uma cabeleira desgrenhada de causar inveja a muito mico-leão dourado.

Este vídeo aqui embaixo quem me mostrou foi o Arthur. É inteligente e engraçado (e, claro, despertou a ira de alguns ao ser incluído num CD de Natal), mas também é doce e sincero. Precisamos desesperadamente de mais Minchins e menos Rafinhas Bastos e sim, existe um abismo de proporções intergaláticas entre os dois. Só a patrulha das piadas de salão parece não perceber a diferença.
***

15 respostas em “Inteligentemente incorreto

  1. Eu nem me lembro mais a primeira vez que eu vi um vídeo dele, mas aí, queria mandar pra um monte de gente (foi bem o das 3 confissoes) e me peguei pensando pra quem eu poderia mandar, exatamente pq a turma do politicamente correto nao quer entender a piada…ou nao sabe. Sei lá.
    Bjs!

    • O das 3 confissões é ótimom, e tem gente que realmente não entende o espírito da coisa. Outro que eu adoro é o The Good Book. Porque é good. E porque é book… 🙂
      bjk

  2. Você tem razão, Monquinha: este hipócrita e mui severo senhor, o Politicamente Correto Pereira de Souza, já passou dos limites.
    A cada dia torna as relações humanas mais idiotizadas, sempre com os defensores dele se esbaldando na arte de encher o saco alheio, de dizer asneiras que julgam verdades absolutas e de desrespeitar e não entender que humor é isto: rascante, demolidor, iconoclasta, irresponsável.
    Sou politicamente incorreto deste criancinha, você sabe disto.
    Salve o Minchin e seus pares: eles sim, são o sal da terra, sem o menor laivo político-religioso da minha parte.
    Beijim procê.

    • Stélio, vai ter Pereira de Souza reclamando de você, hein… 😛
      É verdade que muita gente que se diz politicamente incorreta simplesmente faz humor ofensivo e ponto. Justificam sua falta de talento para o humor inteligente (e sabe-se lá o que significa inteligência…) dizendo-se perseguidos. Alguns merecem mesmo, pela falta de noção. Mas tem muita gente boa por aí levando na cabeça por causa das burradas que os menos talentosos fazem, e isso eu acho a maior sacanagem. O bom é que a internet coloca tudo à mostra, você descobre a pessoa, clica nos links e depois é só espalhar. É muito bom não depender do que os outros dizem que eu devo ver e ouvir…

  3. Eu concordo com quase tudo no seu texto, Monica.
    Só não entendi a escolha do vídeo. Esse aí é um dos meus “cartões de Natal” de todo ano, é sentimental, é bunitim, me lembra demais minha família e o que eu gostaria de falar para meus filhos se eu tivesse talento para as palavras como o moço descabelado… Sim, ele diz que não é religioso, que acha as letras de músicas religiosas suspeitas, mas não vejo nenhuma intenção de piada, ou mesmo de ser “politicamente incorreto” em nenhum momento.
    O “The Good Book” seria mais adequado, eu acho.
    Mas pode ser só o jeito que eu vejo, né?

    • Max, eu adoro o Good Book (because it’s good and it’s a book!), realmente faltou ele nos links no texto. Eu escolhi esta musiquinha precisamente por ter sido vítima dos politicamente corretos, mesmo sendo absolutamente inocente – tem gente que enxerga chifre em cabeça de cavalo quando lhe convém. A música que ele fez pro papa, por exemplo, é muitíssimo mais direta e beira a ofensa, embora seja por um bom motivo (a insistência da Igreja em proteger casos de pedofilia dentro da instituição). Imagino que muita gente tenha ficado p. da vida com ela, se conseguiram se irritar com esta aqui…

  4. Pra mim, a vida não tem sentido sem o politicamente incorreto. E quem se diz politicamente correto e, por consequência, intolerante e avesso ao incorreto, devia se olhar no espelho. Somos politicamente incorretos todos os dias, muitas vezes sem perceber. É aquela história da Maria Madalena, né, quem nunca foi politicamente incorreto, “que atire a primeira pedra”. E mais, dependendo do talento, tem gente muito boa de serviço na mídia que consegue ir além da tal tênue linha entre o incorreto e o ofensivo e, ainda assim, não ofender. Gostei muito desse Tim Minchin, mas, pra mim, a campeã do “politicamente-incorreto-muitas-vezes-ofensivo-e-ainda-assim-hilária” é a Sarah Silverman. Ela não perdoa nada nem ninguém. Quando se é engraçado de verdade, até a ofensa é divertida. Eu, pessoalmente, considero isso uma bênção, não é pra qualquer um mesmo! Quem ainda não conhece Miss Silverman, basta entrar no YouTube e digitar “sarah silverman – jesus is magic (legendado)”.

    • hahaha, a Silverman é tudo de bom, acho que foi você mesmo quem me apresentou ao trabalho dela! Eu tendo a achar a ofensa desnecessária (embora ela muitas vezes seja mesmo engraçada), acho que dá pra fazer humor de alta qualidade sem ela. E costumo gostar mais de um cara com ‘cara de sonso’ como o Minchin do que, por exemplo, um mais incisivo – embora genial – como George Carlin. Eu continuo achando hilária essa seletividade dos politicamente corretos: riem de algumas coisas (que eles acham nonsense, como a religião ou a preferência política do outro, por exemplo, mas ai do comediante se falar de um tema que ele considera ‘sério’! Por favor…

      • Só pra dizer que o que eu acho legal na Sarah Silverman é justamente o fato de, por baixo daquele “verniz” de mocinha judia com cara de menininha “quase” virginal e de voz doce, ter um “monstrinho” de boca suja que perde o amigo mas não deixa a piada passar de jeito nenhum. Vai ser corajosa assim lá na…

  5. Este debate está muito bom.
    Continuem!
    Estou aprendendo a ser um pouquinho mais politicamente incorreto.
    Agradeço à minha mestra de todas as horas, a Moniquinha e, até agora, ao Max e ao Murilo, que ampliaram o corpo docente.
    Mas, senhores professores, não durmam sobre os louros (epa! tem sueco aí por perto?) senão o aluno pode tornar-se um rebelde da pior estirpe…

  6. tem muita coisa engraçada e triste no politicamente correto e incorreto… e o ter texto é excelente, como sempre. A parte triste, além destes ensandecidos moralistas de plantão, é ver o que os políticos pelo povo escolhidos estão fazendo e isso ser considerado politicamente correto… seria uma grande piada, se não fosse a tamanha tragédia…

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