Tudo novo do mesmo jeito

Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
… nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o olhar.
O mesmo espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre minha cabeça
nada ali indica
que um Ano Novo começa.

E nao começa
nem no ceu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homen
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).
***
(Ferreira Gullar – Ano Novo)

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