Rush – adrenalina e naftalina

Chris Hemsworth as James Hunt and Daniel Brühl as Niki Lauda in Rush

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A única coisa que me ocorreu naquela manhã de domingo de 1984, vendo o ex-piloto e então diretor de prova Jacky Ickx dar por encerrado o Grande Prêmio de Mônaco de Fórmula 1, foi dizer mentalmente pro Alain Prost, vencedor do dia: “Cê vai ver, baixinho, isso ainda vai te custar o campeonato.” Se alguém aí conhecer o Alain, avisa por favor que a praga foi rogada de mentirinha e que eu não tenho nada a ver com o fato dele ter perdido o mundial para o Niki Lauda naquele ano. Pela diferença de meio ponto. Com a corrida interrompida, o francês levou metade da pontuação da vitória – 4,5. Se tivesse continuado, o então estreante Ayrton Senna (que tinha acabado de assumir a ponta) possivelmente teria vencido e Prost ficado em segundo – garantindo preciosos 6 pontinhos e sagrando-se campeão no fim do ano; Lauda teria sido vice, novamente perdendo o lugar mais alto no pódio pela diferença de um mísero ponto, como já tinha acontecido em 1976. O austríaco (vencedor em 75 e 77) foi tricampeão e eu, team Lauda desde criancinha, comemorei muito. Sim, F1 era pura adrenalina na veia.

Assistir ao filme Rush foi como voltar a uma época em que acompanhar Fórmula 1 domingo sim, domingo não, era um ritual tratado com toda a seriedade na minha casa. A gente conhecia todos os pilotos, todos os carros e escuderias, cores de capacetes, chefes de equipe, sabia quem estava usando qual motor. Passávamos juntos pelos momentos de profunda irritação quando o Galvão Bueno errava sistematicamente o nome daquele piloto entrando nos boxes pra trocar pneu ou quando anunciava, meia volta depois da gente, que o carro tal não tinha passado pela reta. Acordávamos cedo para as corridas na Europa, virávamos a madrugada esperando as do Japão e Austrália. Vimos incontáveis motores turbo explodindo nos anos 80, testemunhamos rapazes malucos se espatifando contra guard rails, engolidos pelas chamas e fumaça de litros e litros de combustível, e sempre ficávamos na expectativa de ver os caras jogando o volante longe e pulando fora dos carros com o capacete e tudo, como se fosse um desenho animado onde vilões e mocinhos sempre sobrevivem. Mais vezes do que gostaríamos, os rapazes simplesmente não saíam. Foi assim com Peterson, em 1978. Paletti, em 1982. Berger em 1989 (mas com happy end). Em 1994 com Senna.

Se você não faz a menor ideia do que era a F1 na década de 70, recomendo muitíssimo ver o filme. Mesmo que não esteja muito interessado na rivalidade entre James Hunt e Niki Lauda, mesmo não estando curioso pra saber como dois corredores com personalidades tão opostas podiam ser igualmente fantásticos nas pistas. Ou em como Lauda conseguiu se sentar de novo num caixão ambulante daqueles, pouco mais de 40 dias depois de ter sofrido aquele acidente espetacular e ‘ter visto a vó pela greta’. Assista ao filme para conhecer como eram as corridas numa época em que tudo era muito mais paixão do que juízo, um tempo em que os pilotos chegavam primeiro com seus extintores aos locais dos acidentes, porque as equipes de resgate eram lentas demais. Um tempo em que a preocupação com a segurança ainda estava dando seus primeiros passinhos e corridas podiam acontecer sob condições absurdas, guard rails eram mal posicionados e degolavam os pilotos (como aconteceu com François Cévert nos EUA, em 1973), e os carros pouco ou nada podiam fazer para proteger os pilotos em caso de colisão. Mas era também a época em que os milhões e milhões de dólares dos patrocinadores ditavam bem menos do que hoje e os contratos trilhardários de publicidade ainda não imperavam, então o sujeito tinha que mostrar serviço na pista para fazer valer seu salário. E de vez em quando a gente era brindada com cenas assim – nada menos do que os cinco primeiros pilotos recebendo a bandeirada em pouco mais de meio segundo. Os caras iam lá e seguravam os carros no braço.

Pra quem, como eu, acompanha o esporte (tá, tem gente que diz que não é esporte, mas vou relevar) desde a época em que os dinossauros habitavam o planeta, e se lembra muito bem da temporada de 1976, Rush é simplesmente imperdível. E ainda te dou mais três motivos pra ir ao cinema: a atuação brilhante de Daniel Brühl como Niki Lauda (perfeito inclusive no sotaque peculiar do austríaco ao falar inglês), a finíssima estampa de Chris Hemsworth, dando um belo upgrade no visual como James Hunt (ok, isso vale pras meninas) e a cereja do bolo: até que enfim a gente assiste às provas sem o chato do Galvão Bueno na narração falando bobagem. Acredite, isso faz uma diferença danada.

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6 respostas em “Rush – adrenalina e naftalina

  1. Monica, o que você acha que corridas como a Fórmula 1 têm (ou tinham) de tão especial para fascinar tanto pessoas como você? Você acha que as pessoas enxergam algo da vida delas nas corridas (como dizem que acontece no futebol), ou elas apenas gostam da Fórmula 1 pelo que ela é (porque isso já é o bastante), sem significados ocultos?

    • Olha, os outros eu não sei, mas ver um bando de doidos a 300 por hora é minha ideia de diversão! 🙂 Hoje já não tem a mesma graça (o Piquet dizia que todo mundo assiste pra ver as batidas, mas eu sempre preferi os ‘pegas’), infelizmente. Na verdade, eu tenho preguiça mesmo é de futebol – os outros esportes eu sempre procuro acompanhar…

  2. Por que amar Fórmula 1? a) Gilles Villeneuve vs. René Arnoux; b) Gilles Villeneuve Zandvoort 1979 (com trilha de All of my love, do Led); c) Senna vs. Mansell; d) Senna vs. Prost; e) Senna pegando carona com Mansell na Inglaterra, em 1991; f) Piquet vs. Senna. Todos os vídeos estão no Youtube e, caraca, a gente fala mal do Galvão, mas quem ama Fórmula 1 ainda se emociona escutando a vinheta da vitória enquanto ele gritava “Ayrton Senna do Brasil!!!” Pãpãpã-pãpãpã! (PS: deletei meu Facebook mas continuo te admirando daqui)

    • Felipe (arrá, então o sumiço do FB tá explicado…), os ‘pegas’ na F1 são mesmo antológicos, e acho que é isso o que mais me faz falta quando tento assistir a alguma corrida hoje em dia. Os caras continuam bons, mas antes eles eram bons e doidos. 🙂
      Mas, ó, vou te confessar que nunca me emocionei com o Galvão falando coisa alguma, viu… Sempre achei ele um porre, antes mesmo desse ufanismo bobo dele. Mas se ele tá até hoje por ali, a chata devo ser eu, hehehe…
      bjk!

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