Quase surreal

Foram quase três dias. Cinco protocolos de atendimento. Uma visita à loja, que não deu em nada. No final, na última conversa, me apareceu o Felipe do outro lado da linha. O Felipe resolveu o meu problema, mas só porque eu apelei para o “Eu vou fazer uma reclamação formal na Anatel se você me deixar esperando meio segundo que seja.” Funcionou. Sempre funciona. Aí eu fiquei feliz porque, né, cinco protocolos de atendimento e uma visita à loja mais tarde, eu finalmente tinha conseguido fazer o cancelamento da linha, e a saga deveria ter terminado ali. Mas, no sábado, a mocinha da operadora me liga:

– A senhora Mônica, por favor? (é claro que é gente do telemarketing, nenhum amigo em sã consciência me chamaria de ‘senhora’)
– Sou eu.
– Bom dia, senhora Mônica. Sou a Fulana, da operadora XYZ. Gostaria de estar falando com a senhora sobre o seu cancelamento.
– Algum problema?
– A senhora cancelou a linha por qual motivo?
– Olha, deve estar aí no sistema de vocês, eu já repeti essa história cinco vezes. Estou de mudança pro exterior. (é claro que eu não estou de mudança nem pro apartamento ao lado, mas imaginei que essa seria uma boa explicação para um cancelamento de linha telefônica. Mais definitivo do que isso, só por motivo de falecimento, mas é que eu preferia continuar viva)
Mas a senhora vai estar mudando em caráter definitivo?
– Fulana, né? Ô Fulana, não existem certezas nessa vida. Certo mesmo, de verdade, só duas coisas: que eu, você e todo mundo um dia vamos morrer e que, até isso acontecer, eu, você e todo mundo vamos pagar uma fortuna em impostos. Mas te digo que sim, é definitivo, pelo menos por enquanto.
– Temos uma oferta para fazer pra senhora – a senhora vai estar pagando apenas X reais por mês durante um ano, e com isso vai estar mantendo seu número atual.
– E por que raios eu ia fazer uma coisa dessas, se vou estar noutro país?
(ignorando minha pergunta) E, com mais Y reais, a senhora também vai estar tendo direito a TV a cabo e internet com velocidade de Z Mega.
– Querida (eu detesto usar ‘querida’, mas foi só o que me ocorreu pra não apelar para um ‘sua anta’), a operadora XYZ trabalha em outros países?
– Não, senhora Mônica. Operamos em todo o território nacional.
– Então você poderia por favor me explicar como é que vocês pretendem me garantir todos os serviços de telefone, internet e TV a cabo do outro lado do Atlântico (já que vai mudar, fia, vai pro outro lado do oceano, que é pro cabo não chegar de jeito nenhum), que é onde eu vou estar?
– Mas a senhora vai estar pagando um preço muito menor do que as assinaturas normais.
– Fulana, eu sei que vocês trabalham sob pressão. Não é fácil atingir as metas. Talvez o seu supervisor esteja neste exato momento bufando atrás do seu pescoço, querendo saber como você está trabalhando. E eu espero de coração que esta ligação esteja sendo gravada, que é pro pessoal do treinamento da operadora XYZ perceber que porcaria de treinamento eles estão dando pra vocês. Porque, francamente, não tenho nem palavras. (era pra eu completar ‘por favor, esfregue seus dois neurônios um no outro, quem sabe solta uma faísca e seu cérebro pega no tranco?’, mas achei que ela não iria entender). Eu não quero nada disso. Só quero continuar cancelada, como me prometeu o Felipe outro dia.
– Mas se a senhora vai estar mudando, vai ficar alguém no endereço?
– Acho que isso, querida (o ‘querida’ de novo…) não é da sua conta, nem da operadora XYZ. Vamos fazer o seguinte: vou contar até três e vou desligar. Se você contar junto comigo, a gente desliga juntas. Se eu for mais rápida, ‘vou estar desligando’ na sua cara. Combinado? Bora: 3… 2… 1… tuuuuuu…

Olha. Fica difícil manter o amor quentinho no coração quando aparecem criaturas assim na vida da gente, viu. Mais um naco da minha fé no cerumano desce o ralo.

8 respostas em “Quase surreal

  1. Hahaha! Muito bom. Passei por uma coisa parecida nos últimos dias, mas pior: cancelaram meu telefone sem eu pedir, não queriam religar porque, afinal, havia sido um pedido meu e ainda por cima eu não me entendia com o secretário eletrônico, que ficava me repassando para o setor errado. Seu texto me refrescou um pouco por aquela regra da pimenta, sabe? Um abração.

    • ahaha, seu atendente virtual era o Eduardo? Porque eu já ia dizer que o único funcionário solícito e decente da operadora é ele… Mas me irrita muito esse tom de ‘fomos colegas de colégio’ dele, e até com direito a barulhinho do teclado quando diz ‘estou procurando seu nome em nosso cadastro’… Gente, eles acham que eu sou retardada, só pode… 😀

  2. ha ha ha. Quase surreal nada!! Totalmente surreal, apesar de rotineiro. Se você se mudasse para a Islândia (se é para mudar, que seja para um lugar exótico) e ligasse para uma operadora de lá, falando em português, provavelmente a atendente compreenderia mais rápido que a Fulana…

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