O Queen faria 40 anos em fevereiro…

(há dez anos eu perdia um grande amigo. Há quase três, publiquei este post.)
***

… e se você estivesse por aqui agora, certeza de que arrumaríamos um jeito de comemorar, você jamais deixaria passar uma data dessas em branco. Talvez a gente marcasse um jantar na sua casa, e mesmo com aquele tanto de vinhos maravilhosos na cave, você sairia pra comprar outra garrafa, porque nenhum deles combinaria com o que você estava preparando. Aí a gente ouviria toda a sua coleção, e isso poderia levar a noite inteira, mas tudo bem, porque tinha os vinis, os CDs (inclusive aqueles das carreiras-solo), as gravações exclusivas que só os fãs com carteirinha do fã-clube como você tinham acesso, antes que o mp3 e a internet entrassem em cena, facilitando a nossa vida. E você me contaria todas as histórias de novo, todos os casos com todos os detalhes, aquelas coisas que só quem tinha lido todas as biografias, colecionado todos os artigos, assistido a todas as entrevistas, podia saber. Se estivéssemos aqui em casa, tentaríamos pela milésima vez cantar ‘My Melancholy Blues’ direito, mas eu nem me arriscaria na introdução do piano e iria me atrapalhar toda com a partitura como sempre e a gente morreria de rir e continuaria cantando sem acompanhamento mesmo, e aquele riso frouxo não combinaria de jeito nenhum com a fossa da música, mas aí é que estava a graça. Se você estivesse por aqui, a gente poderia cantar de novo ‘Guide Me Home’, você fazendo a voz do Freddie, eu faria a da Montserrat, porque já tem tempo que eu não canto essa música, na verdade desde que a frase “Guide me back safely to my home where I belong once more” ganhou um significado totalmente diferente pra mim, e por isso eu sempre paro antes dela. A gente pegaria a reprodução do quadro ‘The Fairy Feller’s Master Stroke’ que você me deu de presente – e que está pendurada aqui mesmo no escritório – e tentaria encontrar todos os personagens descritos na música. E você me faria contar outra vez sobre quando vi o Queen no Rock in Rio, em um distante 1985, e me diria mais uma vez que esse show você queria muito ter assistido (embora você tenha ido a tantos outros em tantos lugares). Você tentaria me convencer pela centésima vez de que os albuns depois de ‘The Game’ eram bacanas, eu te explicaria por que eu achava aquele lado mais pop meio chatinho, mas ambos concordaríamos que ‘Somebody To Love’ é a melhor música pra cantar bem alto no banheiro ou dentro do carro. E então terminaríamos a noite cantando ‘Seven Seas of Rhye’, aquela que decidimos que era a nossa cara. Isso tudo a gente bem que poderia fazer agora, se 2003 nunca tivesse existido e você ainda estivesse por aqui pra comemorarmos juntos esses 40.

30 respostas em “O Queen faria 40 anos em fevereiro…

    • Ai, Valery, não era a minha intenção, juro…
      Eu tenho muitas saudades das pessoas, mas é sempre uma coisa boa (afinal, são pessoas queridas), então as lembranças não me deixam triste não.
      bjk

  1. Acho que entendi. E chorei. 2006 tb podia não ter existido.
    Engraçado como a gente gosta das mesmas coisas mesmo crescendo em lugares diferentes, não?

    • Acho que a gente pode dizer, sem risco de estar erradas, que bom gosto não conhece fronteiras de tempo e espaço, né não? 🙂 Olha só, eu aqui, você aí, meu amigo lá na França…
      Algumas épocas são mais tranquilas, outras com mais sobressaltos, mas se não fosse 2001, 2003 ou 2006, teria sido um outro ano qualquer, né? A gente nunca está totalmente preparada pra essas coisas, como bem lembrou o Mário Quintana naquela quadrinha…

  2. Nem sei de quem vc fala, mas chorei! Deve ter sido mesmo uma amizade linda! Que bom que vc tem tantas coisas boas pra lembrar do seu amigo! 1000 bjos

    • Ai, gente, eu não queria fazer ninguém chorar em plena segunda-feira não, sério!!! Sorry…
      Mas você tá certa, era um amigo muito querido e as lembranças – que são muitas – são as melhores possíveis.
      Eu me sinto privilegiadíssima por estar sempre cercada de pessoas maravilhosas – tanto na vida real como na virtual!!!
      1000 beijos vezes 1000!🙂

  3. Mônica,
    linda crônica.
    Este personagem é até hoje chorado em verso e prosa no CETEC.
    Quem me contou foi o totonho, nós dois na pachorra duma cadeira confortável, lá no Varandão, beiradinha da Lagoa do Fundão.
    Aposto que ele ia adorar sentar lá pra prosear conosco.

    Beijo,

    Stélio

    • Obrigada, Stélio!
      É tanta gente bacana que já atravessou (e grazadeus ainda atravessa) o meu caminho, que fica até difícil saber quem é quem, né…
      O amigo de quem eu falo no texto não era do Cetec não. Ele foi meu colega por um tempo, depois foi de mala e cuia pra Paris e viveu por lá durante 20 anos. Éramos muito chegados, eu ia pra lá, ele vinha pra cá e a gente sempre dava um jeito de se ver. No começo eram as cartas, depois, com a internet, ficou bem mais fácil manter contato. Era uma pessoa muito bacana.
      Mas foi papai quem me introduziu oficialmente ao Queen (eu já conhecia várias músicas), ao trazer um vinil dos Estados Unidos uma vez. Papai adorava um bom roquenrôu, e era um dos maiores entusiastas da banda. Só não viu o show no Rock in Rio porque estava aqui em BH no dia. Mas viu o do Yes comigo – e adorou! 🙂
      E é verdade, prosa era com ele mesmo!!!
      bjk

  4. Mônica
    belíiissimo… o texto, terno como as lembranças! isto é a ESSÊNCIA do que fica das chamadas “perdas necessárias”. Como dizia Emily (Dickinson), …para preencher o vazio, só aquilo que o causou… não existem sublimações, elas são anódinos, importa é no seu caso, e demais pessoas que a compreendem: (que aqui se pronunciaram), enquanto vc existir, ele permanecerá com vc, neste caso ele ainda vive!
    Os marcos de nossas vidas merecem uma homenagem assim,
    para sempre e compartilhada! Enorme abraço

    • Vanilda,
      e a Emily sabia das coisas… Uma de minhas preferidas, sem dúvida. Pois é, eu não brigo com as perdas não, que eu acho meio desperdício de energia (já que não tem volta, né…). Prefiro guardá-las para curtir uma saudade boa e me rodear de boas lembranças.
      Abração!

  5. Monica, mais um lindo texto seu, sem palavras, queria eu conseguir escrever tão bem quanto você, como não consigo, fico muito satisfeito e feliz por ter encontrado seu blog e poder ler o que você escreve, e lendo me fez sentir saudade de um monte de coisas e pessoas, que ou já não existem mais ou se foram dessa terra, recordar é viver e as vezes sofrer também, abraços.

    • Obrigada, Fernando, que bom que a leitura te fez lembrar de pessoas queridas! A gente se lembra de quem já foi e pode se lembrar também das muitas que ainda estão aqui conosco, e assim podemos dizer pra elas o quanto elas são especiais pra nós…
      abraço!

    • Mas chorar de saudade pode e muito, né? Só não vale aquela saudade triste, de doer. Eu tenho e muita desse amigo, mas ele era uma pessoa tão alto astral, que sempre que me lembro dele, é pra lembrar só de coisa boa!
      O povo de Beagá não vai acabar concê não, podexá… 🙂
      bjk pra você!

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