O conselheiro do crime

Eu e a minha perpétua antipatia das distribuidoras e suas escolhas de títulos de filmes em português. Ok, ‘counselor’ pode ser traduzido pro português como conselheiro, mas no caso específico de ‘O Conselheiro do Crime’, a palavra mais exata talvez fosse simplesmente ‘advogado’, ou qualquer outro termo nessa linha. É assim, sem nome próprio mesmo, que o personagem de Michael Fassbender é chamado e, a bem da verdade, ele não aconselha coisa alguma pra ninguém – na realidade, são os outros que passam as quase duas horas de projeção dando dicas pro moço e questionando o que ele deve ou não fazer, alertando sobre os riscos e consequências de suas decisões e tudo o mais.

O trailer também pode te pegar no contra-pé. Javier Bardem, Penélope Cruz, Brad Pitt, Michael Fassbender, Cameron Diaz (a gente não vê, mas Bruno Ganz e Rosie Perez também estão lá), todos na mesma produção? Mais estrelas numa mesma tela do que isso, só se fosse coisa do Woody Allen ou Robert Altman. Parece que vai ser um filme com muita ação (falar sobre roubo de carregamento de drogas atravessando a fronteira do México pros EUA é garantia de bons tiroteios e explosões). Parece que vai ter intriga e muita ‘furação de olho’. Parece que a história vai ser firmar em um determinado personagem. Mas não, não e não.

O que tem de verdade é um texto do escritor Cormac McCarthy (em seu primeiro roteiro original) repleto de diálogos curtos, ácidos, rápidos e até mesmo um tanto cliché e fake (não parecem conversas que pessoas como aquelas teriam em condições normais de temperatura e pressão) contrastando com o desenvolvimento bastante lento da trama – acontece muito pouca coisa na primeira metade do filme. E quando as coisas acontecem pra valer, a impressão que temos é a de que nenhum dos personagens mostrados ali tem qualquer responsabilidade ou participação nos acontecimentos – as tramas seguem em paralelo e ao largo deles, e são os diálogos que as costuram. O arremate do contraste com o texto sofisticado fica por conta da fotografia e iluminação saturadas e uma ambientação decididamente cafona (o que são aquelas camisas do Bardem e as tatuagens de pegadas de onça da Cameron Diaz, meodeols?).

Mas, pra  mim, o filme ficou devendo. E eu vou arriscar um palpite assim, da minha cabeça. O que faltou foi um diretor com o mesmo senso de humor negro, crítico e irônico de McCarthy. Ficou faltando um Ethan e Joel Coen, que fizeram uma bela adaptação de ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’, do mesmo McCarthy. Ridley Scott é um super diretor, mas acho que, para aproveitar ao máximo a riqueza de um roteiro assim, era preciso mais. Era preciso explorar e espremer o texto ao máximo. Daí que ficou um filme interessante, com uma fotografia interessante, com excelentes atores em papéis interessantes. Mas parou por aí. Pena.
***

counselor2

5 respostas em “O conselheiro do crime

  1. E tem aquele “Medianeras – Buenos Aires na era do amor virtual”. O que era para traduzir (“medianeras”), não traduziram. E o subtítulo, que não tinha, colocaram. O que você achou desse filme?

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