A lista do moço

O link chegou num e-mail com um bilhetinho: “Você TEM que ler isso”, mas o título do artigo – ‘20 motivos para eu odiar morar no Brasil’ – me deu uma certa antipatia imediata. É que a ideia toda me pareceu incrivelmente idiota. Pensa bem, você passa três anos em um país diferente do seu e o melhor que consegue fazer é produzir uma lista com algumas das coisas que te deixaram p. da vida por lá? Sério? Já pensou alguém ser convidado para ir a sua casa e depois sair por aí com ’10 itens medonhos na decoração da sua sala de visitas’, ‘5 coisas intragáveis no seu jantar’ ou ’20 detalhes ridículos da sua festa de casamento’? Delicadeza, saudades eternas, descanse em paz.

A lista me pareceu mais tola ainda quando parei pra pensar que, se eu conseguir enumerar vinte coisas que me irritam em qualquer esfera da minha vida – trabalho, relacionamento, lugar onde moro, vida pessoal –provavelmente vou achar bem mais produtivo gastar meu tempo e energia fazendo alguma coisa a respeito (pedindo demissão, me divorciando, mudando de casa, bairro ou cidade ou procurando terapia), ao invés de ficar de mimimi na internet, como se fosse uma criança mimada que não teve suas vontades atendidas a tempo e hora.

Resolvi dar uma chance ao moço e considerar que, sei lá, vai ver ele desembarcou nas nossas praias totalmente contra sua vontade, vai ver ele chegou em casa um belo dia e encontrou a esposa brasileira com a mudança empacotada e encaixotada e anunciando com um sorriso maroto,“Adivinha só, querido, vamos nos mudar para o Brasil!”, ou então vai ver ele perdeu carro, casa e as economias na confusão de 2008 e, pra não perder também o emprego, teve que aceitar a transferência para um canto qualquer do patropi. Nessas circunstâncias, fica difícil mesmo encontrar qualquer espacinho no coração pra boa vontade para com a nova terra.

É claro que eu concordo com vários itens da lista do moço. Sou a primeira a reclamar da péssima qualidade dos nossos serviços, da falta de pontualidade das pessoas, do cultivo à cultura do improviso e do ‘jeitinho’, da burocracia burra que me dá a impressão de estar perpetuamente numa gincana, onde a cada nova cópia de documento entregue a um funcionário mal humorado e incompetente, uma outra ‘tarefa’ me é apresentada. Concordo que pagamos caro por serviços ruins de telefonia, internet, eletricidade e o escambau, que temos impostos demais (e pagamos tudo de novo para ter um serviço privado apenas alguns graus acima do remotamente tolerável), que a corrupção é um problemão que está cada vez mais difícil de resolver. Se a gente, que convive com essa esculhambação há anos, fica a um passo de pegar um lança-chamas pra resolver a questão toda de uma maneira, digamos, menos filosófica, calculo então o que deve ser tudo isso para um estrangeiro.

Mas fico pensando cá com os meus botões que existem algumas criaturas nesse mundão de modêus que realmente não deveriam jamais sair de sua zona de conforto, não deveriam nunca se aventurar para adiante de seu bairro, da sua cidade, do seu mundinho cercado e murado, que fariam por bem ficarem quietinhas e bonitinhas em seus próprios cantos, seguras e protegidas de tudo que lhes é diferente, inusitado ou potencialmente ‘ameaçador’.  Essas pessoinhas querem ver a sua cultura estampada na cultura do outro, querem encontrar sempre as mesmas coisinhas que povoam o seu universo, elas se encolhem frente ao desconhecido, ao invés de abraçá-lo e dizer ‘ôba, vamos explorar’.  Reclamam dos hábitos do outro, do que comem e bebem (gente, o moço disse que a comida brasileira é sem graça, cadê os amigos – ele devia ter algum, não é possível – pra levar o coitado a qualquer botequim pra comer e beber algo que preste?). E, curiosamente, reclamam também de coisas que estão presentes na sua própria cultura. Em resumo: são uns chatos.

O ponto de vista do moço poderia ser uma fonte interessante pra gente analisar como somos vistos por olhos estrangeiros. Esse é um exercício extremamente importante (e o qual, diga-se de passagem, estrangeiros como esse aí raramente se dão ao trabalho de fazer).  Seria também uma oportunidade bacana de procurar compreender o que torna cada cultura única e o que nos faz semelhantes, e como essas diferenças e semelhanças podem ser usadas para melhorar o entendimento entre as pessoas.  Mas pra mim, depois de ler e reler a lista algumas vezes, tudo me soou como um desabafo mal humorado de alguém que nem queria estar aqui, pra início de conversa. Quanto desperdício.
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3 respostas em “A lista do moço

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