Ninguém me perguntou, mas…

Olha só, ninguém me perguntou, eu sei, mas eu acho assim, ó: todo mundo tem direito a opinião. Você pode ir pro lado que bem entender. Pode ser a favor do governo ou ficar com a oposição (embora eles sejam bem mais parecidinhos do que a gente gostaria que fossem). Pode acreditar que a democracia anda mal das pernas mas, né, ainda é o que temos para o almoço, ou achar que bom mesmo era quando os milicos chegavam derrubando tudo. Pode dar razão pra puliça ou pros manifestantes nas ruas. Você pode apoiar os israelenses ou os palestinos (embora não custe lembrar que a peleja é entre Israel e o Hamas), pode ficar putin com o Putin e os separatistas ou com o governo da Ucrânia. Pode ser fã do Obama ou achar ele um bocó. Você pode ter a fé que quiser e achar que a sua é mais legal, ou até preferir não ter fé nenhuma, pode achar que o seu time é o mais legal, pode achar funk ou sertanejo ou axé o máximo ou o fim da dinastia, pode ter a opinião que bem entender sobre todo e qualquer assunto, polêmico ou não. O que você não pode, ou pelo menos não deveria, de jeito maneira, é:
– guardar sua consciência crítica no fundo da gaveta e defender cega e incondicionalmente o ‘seu lado’, como se o ‘seu lado’ estivesse sempre e todas as vezes coberto de razão e o ‘outro lado’ sempre falando e fazendo merda, sempre sempre, e com esse raciocínio ser incapaz de encontrar furos nos argumentos do ‘seu lado’;
– ofender e desrespeitar quem pensa como o ‘outro lado’, como se o ‘outro lado’ nunca tivesse absolutamente nada a acrescentar à discussão e que, portanto, qualquer coisa que o ‘outro lado’ pensa está, por definição, completamente errado;
– achar que se alguém não escancara a sua opinião e entra nas discussões curtindo, comentando e compartilhando nas redes sociais (como se as redes sociais da internêta fossem as únicas redes sociais existentes e o único espaço para troca de ideias nesse mundo de modêus), isso necessariamente significa que a pessoa não tem opinião e é uma alienada, coitada.
Tá puxado, brazeeew.

Anúncios

Diplomacia

chhinel no. 5A diplomacia mundial vai, de um modo geral, muito mal das pernas, mas isso todo mundo já tá careca de saber. Claro que não ajuda nem um pouquinho o fato das pessoas estarem demasiadamente chatas e cri-cri umas com as outras, nem a constatação de que todo e qualquer problema atualmente sempre tem o potencial de se tornar um problemão e ganhar uma escala praticamente estratosférica. Mas a minha teoria é de que o que anda faltando mesmo na esfera diplomática do planeta é MÃE. Ou, pelo menos, mães como a que eu tive e que um bocado de gente teve também, não dessas mães que morrem de medo de seus filhotinhos tiranos ou que os super protegem e fazem todas as suas vontades.

Divisão igualitária, por exemplo. Com dona Marina a regra era clara: um parte, o outro escolhe. Nem pense em querer dar seu jeitinho pra levar vantagem porque, se a faca estiver com você, é o seu irmão quem vai escolher o pedaço dele primeiro. Nunca vi um conflito sobre o último pedaço da sobremesa ser resolvido mais rapidamente do que com essa estratégia.

Tentativa baixa de manipulação com jogo de empurra, então? Com MÃE, é sem chance pra mimimi:

– Olhaqui, manhêêê… Olha o Israel no meu lugaaaaaar…
– ISRAEL, SAI DO LUGAR DA SUA IRMÃ AGORA!
– Mas o papai falou que eu podia ficar aquiiiii…
– Mas eu cheguei primeiro, esse lugar já é meu há muito tempo, táááá?
– Olhaí, manhêêê… a Palestina tá jogando os brinquedos dela nimim!!!
– PALESTINA, PÁRA COM ISSO JÁ E VAI BRINCAR NO SEU CANTO QUIETA!
– Ah não, manhêêê… é o Israel que tá me empurrando, ele fica com essa carinha de santinho do pau-oco, se fazendo de vítima, mas foi ele quem começooooou…
– NÃO QUERO MAIS SABER. OS DOIS PRO CASTIGO AGORA!!!
– Mas manhêêê… eu não tou fazendo nada, é ela que tá me provocando!
– Eu não, é você que tá me batendo, você é maior e muito mais forte do que eu, buááá…
– NÃO QUERO OUVIR NEM MAIS UM PIO. CALADOS TODOS DOIS E SÓ SAIAM DAÍ QUANDO EU MANDAR. NÃO TESTEM A MINHA PACIÊNCIA PORQUE DO CONTRÁRIO VAI SER PIOR, NÃO VOU FALAR OUTRA VEZ!!! (em priscas eras, antes da lei da palmada, essa última frase era dita com a havaiana na mão direita, e isso era tudo que bastava para a calma e o silêncio imperarem no local).

Uma mãe dessas caprichadas na diplomacia mundial, amiguinhos, é tudo que eu digo. E o mundo respira aliviado.

A lista do moço

O link chegou num e-mail com um bilhetinho: “Você TEM que ler isso”, mas o título do artigo – ‘20 motivos para eu odiar morar no Brasil’ – me deu uma certa antipatia imediata. É que a ideia toda me pareceu incrivelmente idiota. Pensa bem, você passa três anos em um país diferente do seu e o melhor que consegue fazer é produzir uma lista com algumas das coisas que te deixaram p. da vida por lá? Sério? Já pensou alguém ser convidado para ir a sua casa e depois sair por aí com ’10 itens medonhos na decoração da sua sala de visitas’, ‘5 coisas intragáveis no seu jantar’ ou ’20 detalhes ridículos da sua festa de casamento’? Delicadeza, saudades eternas, descanse em paz.

A lista me pareceu mais tola ainda quando parei pra pensar que, se eu conseguir enumerar vinte coisas que me irritam em qualquer esfera da minha vida – trabalho, relacionamento, lugar onde moro, vida pessoal –provavelmente vou achar bem mais produtivo gastar meu tempo e energia fazendo alguma coisa a respeito (pedindo demissão, me divorciando, mudando de casa, bairro ou cidade ou procurando terapia), ao invés de ficar de mimimi na internet, como se fosse uma criança mimada que não teve suas vontades atendidas a tempo e hora.

Resolvi dar uma chance ao moço e considerar que, sei lá, vai ver ele desembarcou nas nossas praias totalmente contra sua vontade, vai ver ele chegou em casa um belo dia e encontrou a esposa brasileira com a mudança empacotada e encaixotada e anunciando com um sorriso maroto,“Adivinha só, querido, vamos nos mudar para o Brasil!”, ou então vai ver ele perdeu carro, casa e as economias na confusão de 2008 e, pra não perder também o emprego, teve que aceitar a transferência para um canto qualquer do patropi. Nessas circunstâncias, fica difícil mesmo encontrar qualquer espacinho no coração pra boa vontade para com a nova terra.

É claro que eu concordo com vários itens da lista do moço. Sou a primeira a reclamar da péssima qualidade dos nossos serviços, da falta de pontualidade das pessoas, do cultivo à cultura do improviso e do ‘jeitinho’, da burocracia burra que me dá a impressão de estar perpetuamente numa gincana, onde a cada nova cópia de documento entregue a um funcionário mal humorado e incompetente, uma outra ‘tarefa’ me é apresentada. Concordo que pagamos caro por serviços ruins de telefonia, internet, eletricidade e o escambau, que temos impostos demais (e pagamos tudo de novo para ter um serviço privado apenas alguns graus acima do remotamente tolerável), que a corrupção é um problemão que está cada vez mais difícil de resolver. Se a gente, que convive com essa esculhambação há anos, fica a um passo de pegar um lança-chamas pra resolver a questão toda de uma maneira, digamos, menos filosófica, calculo então o que deve ser tudo isso para um estrangeiro.

Mas fico pensando cá com os meus botões que existem algumas criaturas nesse mundão de modêus que realmente não deveriam jamais sair de sua zona de conforto, não deveriam nunca se aventurar para adiante de seu bairro, da sua cidade, do seu mundinho cercado e murado, que fariam por bem ficarem quietinhas e bonitinhas em seus próprios cantos, seguras e protegidas de tudo que lhes é diferente, inusitado ou potencialmente ‘ameaçador’.  Essas pessoinhas querem ver a sua cultura estampada na cultura do outro, querem encontrar sempre as mesmas coisinhas que povoam o seu universo, elas se encolhem frente ao desconhecido, ao invés de abraçá-lo e dizer ‘ôba, vamos explorar’.  Reclamam dos hábitos do outro, do que comem e bebem (gente, o moço disse que a comida brasileira é sem graça, cadê os amigos – ele devia ter algum, não é possível – pra levar o coitado a qualquer botequim pra comer e beber algo que preste?). E, curiosamente, reclamam também de coisas que estão presentes na sua própria cultura. Em resumo: são uns chatos.

O ponto de vista do moço poderia ser uma fonte interessante pra gente analisar como somos vistos por olhos estrangeiros. Esse é um exercício extremamente importante (e o qual, diga-se de passagem, estrangeiros como esse aí raramente se dão ao trabalho de fazer).  Seria também uma oportunidade bacana de procurar compreender o que torna cada cultura única e o que nos faz semelhantes, e como essas diferenças e semelhanças podem ser usadas para melhorar o entendimento entre as pessoas.  Mas pra mim, depois de ler e reler a lista algumas vezes, tudo me soou como um desabafo mal humorado de alguém que nem queria estar aqui, pra início de conversa. Quanto desperdício.
***

números

Para 2014

Esse discurso não faz parte de nenhuma palestra motivacional. É Tim Minchin, então a gente pode esperar humor e ironia de ótima safra. Porque tudo bem, o mundo até que precisa de coisas grandiosas, pessoas superlativas, grandes feitos, momentos de ‘uau’. Mas a vida da gente também é feita de coisinhas corriqueiras, pequenos gestos, cuidados cotidianos, miudezas que nos fazem felizinhos e nos dão sentido. E não podemos nos esquecer disso de jeito nenhum. Boa hora pra se pensar nisso, com um 2014 aí, novinho em folha.
(se a legenda em português não aparecer, clique no ícone pequenininho do teclado, na parte inferior direita do vídeo)
***

Diferente, mas bem parecido

O ano era 1963. Enquanto olhava as imagens de Martin Luther King falando para centenas de milhares de pessoas em Washington DC durante a marcha pelos direitos humanos, um italiano amigo dos meus pais comentou: “É um absurdo o que estão fazendo nos Estados Unidos, esse preconceito contra os negros, toda essa violência, a discriminação…” Meu pai comentou que sim, era um absurdo mas que, pensando bem, os italianos do norte também discriminavam horrivelmente os do sul (embora sem a mesma violência explícita), faziam pouco deles e em geral consideravam a turma abaixo de Roma inferior a galera de Milão e, né, não se falava muito sobre isso por ali. Vira o italiano, claramente alterado: “Mas não, aquela é uma outra gente!!!”

Quer dizer. O caso é que é facinho apontar o preconceito dos outros. Enxergar o nosso próprio preconceito, admiti-lo e (de preferência) fazer alguma coisa a respeito, taí o grande desafio.
***

Análise aos oito

Como muitos meninos da sua idade, aos oito anos ele também é louco por futebol. E por seu time. Camisa oficial, boné e bandeirinha e muitos gritos de ‘Gooooool’ para comemorar. Muitos. Na sala. Na janela. Na varanda. Tantos, que a mãe preocupada resolve perguntar:
– Mas meu filho, precisa dessa gritaria toda? O que é isso?
– Angústia, mãe. Isso é angústia…
Olha. Se isso não é uma das melhores análises psicanalíticas do ato de torcer pro seu time de futebol que eu já vi, então eu não sei o que é…
***