Ninguém me perguntou, mas…

Olha só, ninguém me perguntou, eu sei, mas eu acho assim, ó: todo mundo tem direito a opinião. Você pode ir pro lado que bem entender. Pode ser a favor do governo ou ficar com a oposição (embora eles sejam bem mais parecidinhos do que a gente gostaria que fossem). Pode acreditar que a democracia anda mal das pernas mas, né, ainda é o que temos para o almoço, ou achar que bom mesmo era quando os milicos chegavam derrubando tudo. Pode dar razão pra puliça ou pros manifestantes nas ruas. Você pode apoiar os israelenses ou os palestinos (embora não custe lembrar que a peleja é entre Israel e o Hamas), pode ficar putin com o Putin e os separatistas ou com o governo da Ucrânia. Pode ser fã do Obama ou achar ele um bocó. Você pode ter a fé que quiser e achar que a sua é mais legal, ou até preferir não ter fé nenhuma, pode achar que o seu time é o mais legal, pode achar funk ou sertanejo ou axé o máximo ou o fim da dinastia, pode ter a opinião que bem entender sobre todo e qualquer assunto, polêmico ou não. O que você não pode, ou pelo menos não deveria, de jeito maneira, é:
– guardar sua consciência crítica no fundo da gaveta e defender cega e incondicionalmente o ‘seu lado’, como se o ‘seu lado’ estivesse sempre e todas as vezes coberto de razão e o ‘outro lado’ sempre falando e fazendo merda, sempre sempre, e com esse raciocínio ser incapaz de encontrar furos nos argumentos do ‘seu lado’;
– ofender e desrespeitar quem pensa como o ‘outro lado’, como se o ‘outro lado’ nunca tivesse absolutamente nada a acrescentar à discussão e que, portanto, qualquer coisa que o ‘outro lado’ pensa está, por definição, completamente errado;
– achar que se alguém não escancara a sua opinião e entra nas discussões curtindo, comentando e compartilhando nas redes sociais (como se as redes sociais da internêta fossem as únicas redes sociais existentes e o único espaço para troca de ideias nesse mundo de modêus), isso necessariamente significa que a pessoa não tem opinião e é uma alienada, coitada.
Tá puxado, brazeeew.

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Quase surreal

Foram quase três dias. Cinco protocolos de atendimento. Uma visita à loja, que não deu em nada. No final, na última conversa, me apareceu o Felipe do outro lado da linha. O Felipe resolveu o meu problema, mas só porque eu apelei para o “Eu vou fazer uma reclamação formal na Anatel se você me deixar esperando meio segundo que seja.” Funcionou. Sempre funciona. Aí eu fiquei feliz porque, né, cinco protocolos de atendimento e uma visita à loja mais tarde, eu finalmente tinha conseguido fazer o cancelamento da linha, e a saga deveria ter terminado ali. Mas, no sábado, a mocinha da operadora me liga:

– A senhora Mônica, por favor? (é claro que é gente do telemarketing, nenhum amigo em sã consciência me chamaria de ‘senhora’)
– Sou eu.
– Bom dia, senhora Mônica. Sou a Fulana, da operadora XYZ. Gostaria de estar falando com a senhora sobre o seu cancelamento.
– Algum problema?
– A senhora cancelou a linha por qual motivo?
– Olha, deve estar aí no sistema de vocês, eu já repeti essa história cinco vezes. Estou de mudança pro exterior. (é claro que eu não estou de mudança nem pro apartamento ao lado, mas imaginei que essa seria uma boa explicação para um cancelamento de linha telefônica. Mais definitivo do que isso, só por motivo de falecimento, mas é que eu preferia continuar viva)
Mas a senhora vai estar mudando em caráter definitivo?
– Fulana, né? Ô Fulana, não existem certezas nessa vida. Certo mesmo, de verdade, só duas coisas: que eu, você e todo mundo um dia vamos morrer e que, até isso acontecer, eu, você e todo mundo vamos pagar uma fortuna em impostos. Mas te digo que sim, é definitivo, pelo menos por enquanto.
– Temos uma oferta para fazer pra senhora – a senhora vai estar pagando apenas X reais por mês durante um ano, e com isso vai estar mantendo seu número atual.
– E por que raios eu ia fazer uma coisa dessas, se vou estar noutro país?
(ignorando minha pergunta) E, com mais Y reais, a senhora também vai estar tendo direito a TV a cabo e internet com velocidade de Z Mega.
– Querida (eu detesto usar ‘querida’, mas foi só o que me ocorreu pra não apelar para um ‘sua anta’), a operadora XYZ trabalha em outros países?
– Não, senhora Mônica. Operamos em todo o território nacional.
– Então você poderia por favor me explicar como é que vocês pretendem me garantir todos os serviços de telefone, internet e TV a cabo do outro lado do Atlântico (já que vai mudar, fia, vai pro outro lado do oceano, que é pro cabo não chegar de jeito nenhum), que é onde eu vou estar?
– Mas a senhora vai estar pagando um preço muito menor do que as assinaturas normais.
– Fulana, eu sei que vocês trabalham sob pressão. Não é fácil atingir as metas. Talvez o seu supervisor esteja neste exato momento bufando atrás do seu pescoço, querendo saber como você está trabalhando. E eu espero de coração que esta ligação esteja sendo gravada, que é pro pessoal do treinamento da operadora XYZ perceber que porcaria de treinamento eles estão dando pra vocês. Porque, francamente, não tenho nem palavras. (era pra eu completar ‘por favor, esfregue seus dois neurônios um no outro, quem sabe solta uma faísca e seu cérebro pega no tranco?’, mas achei que ela não iria entender). Eu não quero nada disso. Só quero continuar cancelada, como me prometeu o Felipe outro dia.
– Mas se a senhora vai estar mudando, vai ficar alguém no endereço?
– Acho que isso, querida (o ‘querida’ de novo…) não é da sua conta, nem da operadora XYZ. Vamos fazer o seguinte: vou contar até três e vou desligar. Se você contar junto comigo, a gente desliga juntas. Se eu for mais rápida, ‘vou estar desligando’ na sua cara. Combinado? Bora: 3… 2… 1… tuuuuuu…

Olha. Fica difícil manter o amor quentinho no coração quando aparecem criaturas assim na vida da gente, viu. Mais um naco da minha fé no cerumano desce o ralo.

Conserta com durex

A presidentA deste patropi abençoado por Deus e bonito por natureza (mas que beleza!) né boba nada. Junto com seus coleguinhas da Corte, arrumam solução facinha pra tudo quanto é problema na brasilândia, com um toque de mágica que faria Samantha Stephens (lembra dela, a bruxinha de A Feiticeira?) sapatear de inveja. Caos na saúde, como resolver? Bora importar médicos de outras paragens (sadly, dr. Doug Ross, dr. Gregory House e dr. Derek Shepherd não constam da lista, o que é positivamente uma lástima). Tá pouco? Pouco é esse bando de estudantes de medicina, todos fortes e bem nutridos, formando em apenas seis anos e caindo na residência, ao invés de serem aproveitados por, digamos, um par de anos a mais a serviço do SUS; hora de aumentar a duração do curso. Agora elA ainda quer estender a cortesia aos dentistas e psicólogos.

Vai que a moda pega, né? Professor? Vai dar aula nas escolas públicas antes de lecionar em qualquer outro lugar. Engenheiro ou arquiteto? Tá cheio de terreno baldio por aí a espera de milhares de residências pro Minha Casa, Minha Vida. A Justiça tá emperrada? E esse tanto de estudante de Direito dando mole, por que não botar essa meninada batuta pra ajudar agilizar  o serviço público? Como é que ninguém pensou nesse precioso nicho de mercado antes, olha, sinceramente eu não sei, prestenção no tanto de mão-de-obra barata pra tapar os buracos (buracos esses, naturalmente, que são beeem mais embaixo). Mas jogar fora uns suplentes de senadores aqui, cortar uns gastos ali, degolar uns ministérios sem-noção acolá? Jamé, como diriam os franceses.

Daí que nessas horas sempre me vem aquela frase da música do Pink Floyd na voz de mr. Roger Waters: ♪♫ Did they expect us to treat them with any respect? ♪♫
Depois esses políticos ficam aí, reclamando com cara de susto.

Phynos e educados

– Aqui é Gaaalo, %$@#*&!!! Chuuuuupa, suas *&/$@!!!
– Vai dormir, seu #!*&¨%!!!
– Cambada de +:*?&%$, vão todos tomar @+*$#*!!!
– Vai você, seu filho *¨%#@*!!!

Diálogo cordato e edificante trocado aos berros quase à meia-noite de uma quinta-feira (com todo mundo tendo que levantar cedo pra trabalhar e/ou ir pra escola no dia seguinte) entre vizinhos torcedores de duas facções – e seguramente morando longe um do outro na rua – após uma partida de futebol que, francamente, não me interessa a mínima. Vizinhos que, é de se supor, levando-se em consideração onde e como moram, são marmanjos bem nascidos e bem alimentados, e receberam boa educação de pai, mãe e escola. E ainda tem gente que acha esquisito eu não torcer pra time nenhum, achar futebol o fim da dinastia e ter cada vez menos paciência pra esse povo sem-noção. E não, eles não são exceção. Estão em número cada vez maior. E definitivamente não, isso não é ‘paixão’ pelo time. É estupidez mesmo.

Madeeeeira

Era uma árvore linda (atentem ao tempo verbal, por gentileza), bem na frente do número 332, o tronco todo emaranhado e retorcido e as folhas enormes por todo lado. Não sei quantos anos tinha, mas certamente era muito antiga. Parece que a desculpa dada pela Cemig foi que ela estava atrapalhando a fiação, o que é uma injustiça enorme – a árvore já devia estar ali naquele lugar muitos e muitos e muitos anos antes daqueles fios de eletricidade entrarem na história (fios esses que já deveriam ser subterrâneos há muito tempo mas, né, como bem lembrou o Nelson, abrir buraco no asfalto pra enterrar fiação não dá voto). Vai daí que, faltando uns poucos dias para o Dia da Árvore, o fim do inverno e o início glorioso da primavera, os moços chegaram de motoserra à tiracolo e lá se foi a árvore. Aquele abraço então para o Departamento de Parques e Jardins e/ou Secretaria de Meio Ambiente ou sei-lá-quem-deu-a-autorização e também pra turma da Cemig, que acha que a solução para esses casos é dar uma de Rainha de Copas e sair cortando cabeças. Olha, cês tão de parabéns, o troféu Sem-Noção deu empate técnico.

Dez pras sete

Dez pras sete da manhã, senhoras e senhores, nem sete horas ainda e ao meu lado, no sinal vermelho, está um moço dos seus vinte e pouquinhos anos no seu possante rebaixado, ouvindo um funk na maior altura. De janelas abertas, que é pra ter certeza que o mundo inteiro – pelo menos num raio de uns vinte metros, por aí – vai compartilhar desse seu suspeitíssimo gosto musical. Adamastor e Hermengarda, meus dois neurônios, nem conseguiram engatar a segunda marcha ainda e tentam funcionar razoavelmente no modo ‘econômico’, mas eis que acabam recebendo um inesperado e pouco bem vindo tratamento de choque. Isso não deve fazer bem pra saúde dos nervos não, como é que uma criatura dessas vai conseguir estudar, trabalhar ou seja-lá-o-que-for que o moço esteja indo fazer a essa hora, se o dia já começa assim? Qualquer música (vá lá, qualquer som) executada nesse volume superlativo já seria uma temeridade, mas funk, então, está muito, mas muito acima do meu nível de compreensão. Se o moço quisesse guardar a overdose de decibéis para si e seus ouvidos aparentemente insensíveis, tudo bem, cada um é livre pra escolher o lixo que deseja ouvir (eu continuo esperando ansiosamente pelo dia em que alguém vai me apresentar a um, qualquer um, unzinho só que seja, funk que preste). Mas obrigar quem estiver nas redondezas a aguentar junto, firme e forte, ou do contrário fechar a janela e ligar o ar-condicionado, olha, é o fim da dinastia, vou te contar.

É o fim…

A Thaís postou este texto dela no Facebook e eu pedi pra trazer aqui pro blog. Porque quem se importa com arte, cultura e educação na brasilândia tá cansado de ver exemplos triste como esse. As histórias se repetem ad nauseum pelo país e os senhores e senhoras que representam o poder público em todas as esferas costumam não dar a mínima. Atualmente, se o tema não for a Copa, ninguém por ali presta a menor atenção. Então vou passar a palavra pra ela e, se você achar importante, compartilhe com seus amigos. Parece coisa pouca, mas não é não.
***

Maestro Elias Lobo, 653 e o dia em que São Paulo matou o ballet clássico

É com muita tristeza que venho aqui dividir meu luto.

Hoje a São Paulo que proibe a distribuição de comida a moradores de rua, a São Paulo que destrói seu patrimônio arquitetônico com empreendimentos imobiliários faraônicos, a mesma São Paulo que entope ruas de carros e fumaça, a mesma São Paulo que atropela ciclistas e motoqueiros, aquela que cria vergonhosas rampas antimendigos, não oferece transporte público digno e comete homicídios contra homossexuais, foi ela mesma a responsável por fechar mais uma de suas escolas de ballet.

O estúdio Kitty Bodeheim, há 60 anos locado na Rua Maestro Elias Lobo, fechou hoje suas portas. Uma lei de zoneamento, que divide a cidade em bairros residenciais de ricos e guetos industriais de pobres, foi determinante na ação da Subprefeitura de Pinheiros em lacrar, para todo sempre, o local em que não só bailarinos, mas seres humanos foram formados.

Dança é muito mais que arte. Dança é estilo de vida. Várias gerações aprenderam com Dona Kitty pliés, arabesques, fouettés e também o verdadeiro sentido da amizade, da disciplina e do comprometimento. Valores que não se encontra mais nem na São Paulo que matou a escola e nem em qualquer outro lugar.

Não conheci Dona Kitty pessoalmente. Quando cheguei à escola, ela já havia falecido. Mas seu legado é tão forte que sua presença é viva em cada uma das pessoas com quem dividi a barra, o centro e meus últimos dois anos. Uma germânica a frente de seu tempo, inteligentíssima e com a capacidade de retirar o melhor de cada aluno. Ouvi pouco, mas o suficiente pra entender que a família que ela criou foi a mesma que me acolheu e retirou toda neura de insistir no ballet mesmo após os 30 anos e mesmo com alguns centímetros a mais de coxa. Porque dança não é corpo, dança é alma!

Hoje, São Paulo, você deixou órfãs gerações e gerações de bailarinos e professores de ballet que exerciam sua prática sem incomodar absolutamente ninguém. O maior incômodo talvez fosse apenas o som do piano. Porque sim… o estúdio Kitty Bodeheim era a última de suas escolas que ainda mantinha pianistas em salas de aula.

Hoje, São Paulo, você simplesmente deu as costas às maiores bailarinas e mestres que a cidade já formou: Neyde Rossi e Ady Ador. Elas deram suor e sangue pela dança da cidade e em troca as presenteou com a dificuldade em alugar espaços decentes por montantes exorbitantes que atividades culturais não conseguem bancar. Isso, se espaços decentes existissem por aqui!

Hoje, São Paulo, você confiscou o prazer e a satisfação de pessoas digníssimas como a Sandra que enxergam na dança sentido de vida e inspiram pessoas.

Hoje, São Paulo, você me envergonhou e me entristeceu. Mas como bailarina disciplinada, permanecerei firme e insistindo para que você seja mais humana e gentil para com aqueles que vivem por você.

Amigos e amigas da Dona Kitty, vocês que dividem o mesmo sentimento que eu, compartilhem esta mensagem. Se o que ficou hoje foi um sentimento de injustiça, vamos pelo menos usar nossa voz como registro desse absurdo. Restou-nos pouca ou nenhuma força para mudar a situação, mas é preciso falar! Muito obrigada!  (por Thaís Resende Gondar)