Ninguém me perguntou, mas…

Olha só, ninguém me perguntou, eu sei, mas eu acho assim, ó: todo mundo tem direito a opinião. Você pode ir pro lado que bem entender. Pode ser a favor do governo ou ficar com a oposição (embora eles sejam bem mais parecidinhos do que a gente gostaria que fossem). Pode acreditar que a democracia anda mal das pernas mas, né, ainda é o que temos para o almoço, ou achar que bom mesmo era quando os milicos chegavam derrubando tudo. Pode dar razão pra puliça ou pros manifestantes nas ruas. Você pode apoiar os israelenses ou os palestinos (embora não custe lembrar que a peleja é entre Israel e o Hamas), pode ficar putin com o Putin e os separatistas ou com o governo da Ucrânia. Pode ser fã do Obama ou achar ele um bocó. Você pode ter a fé que quiser e achar que a sua é mais legal, ou até preferir não ter fé nenhuma, pode achar que o seu time é o mais legal, pode achar funk ou sertanejo ou axé o máximo ou o fim da dinastia, pode ter a opinião que bem entender sobre todo e qualquer assunto, polêmico ou não. O que você não pode, ou pelo menos não deveria, de jeito maneira, é:
– guardar sua consciência crítica no fundo da gaveta e defender cega e incondicionalmente o ‘seu lado’, como se o ‘seu lado’ estivesse sempre e todas as vezes coberto de razão e o ‘outro lado’ sempre falando e fazendo merda, sempre sempre, e com esse raciocínio ser incapaz de encontrar furos nos argumentos do ‘seu lado’;
– ofender e desrespeitar quem pensa como o ‘outro lado’, como se o ‘outro lado’ nunca tivesse absolutamente nada a acrescentar à discussão e que, portanto, qualquer coisa que o ‘outro lado’ pensa está, por definição, completamente errado;
– achar que se alguém não escancara a sua opinião e entra nas discussões curtindo, comentando e compartilhando nas redes sociais (como se as redes sociais da internêta fossem as únicas redes sociais existentes e o único espaço para troca de ideias nesse mundo de modêus), isso necessariamente significa que a pessoa não tem opinião e é uma alienada, coitada.
Tá puxado, brazeeew.

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Rebobinando 2013

Foram tantas as reclamações, tão enfáticos os clamores, tão veementes os lamentos, que no fim eu me vi obrigada a parar e me perguntar “Êpa, mas 2013 foi assim esse horror todomussum - fim do ano que as pessoas estão dizendo?” Procurei por sinais inequívocos de encrenca, tentei listar os maiores problemas, recapitulei meus passos pra detectar onde foi que pode ter dado merda e olha, folgo em afirmar que não, este ano que ora está por um beiço de pulga não foi (pelo menos pra mim) esse pandemônio todo e, pra falar a verdade, passou léguas distante de outros anos em outras épocas que, citando Sua Majestade, eu tranquilamente arriscaria chamar de ‘annus horribilis’.

Tudo bem, ainda não foi desta vez que acrescentei muitos zeros à direita na minha conta bancária (não acertei uma mísera quadrinha na MegaSena, não ganhei nem mesmo um brinde de plástico na pescaria da festa junina da escola da pequena), George Clooney continuou ignorando minha existência, não enviei postais de Bora Bora ou qualquer outro lugar exótico e paradisíaco para os meus amigos, não falei nem dez por cento dos f***-se que eu deveria e gostaria de ter dito, e ainda fiquei devendo ver este patropi abençoado por Deus e bonito por natureza (mas que beleza!) dar passos firmes e resolvidos na direção de se tornar um lugar realmente civilizado pra se viver (ensaiamos uns passinhos aqui e ali, mas não fomos assim muito longe não, pensando bem).

Em compensação, trabalhei muito e bem, e continuo apaixonada pelo que faço, ‘ganhei’ alunos que, mais que aprendizes, me ensinaram montes de coisas bacanas (uma troca que sempre me encanta e me renova, eu lá com o present perfect e os pronomes relativos, aí eles vêm com receitas de suflê que só a avó tinha, técnicas para fazer uma sutura perfeita que não deixará cicatrizes, explicações sobre a diferença entre calúnia, injúria e difamação, dicas maravilhosas de livros e filmes que eu nem sonhava que existiam…), encontrei profissionais online e off que generosamente compartilharam comigo suas descobertas, suas dúvidas, suas vivências.

Reencontrei amigos, renovei e fiz novas e muito queridas amizades – e quem desdenha as redes sociais não faz ideia de quanta gente bacana, linda e interessante está espalhada aí por esse mundo de modêus, só esperando uma chancezinha de nada pra virar seu amigo de infância – tive família, amores e amigos ao meu lado, recarregando minhas energias tanto ao vivo e a cores como pela virtualidade, fui a festas, batizados, aniversários, casamentos e tantas outras celebrações onde pessoas queridas estavam lindas e felizes e me fizeram linda e feliz junto com elas, fiz muitos brindes, vi ótimos filmes, li muito (como há muito tempo não lia), fui a concertos, exposições, vi Elton, vi Paul e faltou um cadinho só pra ver também Bruce e Eddie, fiz pequenos passeios deliciosos, caminhadas nas montanhas, fiz muitas fotos, ouvi muita música boa (porque eu não ouço música ruim, hoho). Me mantive saudável e até a onda de perdas que andava rondando os meus nos últimos anos fez a delicadeza de dar um tempinho.

Então acho que eu tenho mesmo muito mais a agradecer do que reclamar. 2013 não vai chegar a receber um Oscar por seu desempenho, mas aparentemente me foi mais suave do que pra muita gente. 2014 taí nas portas, com muitos (e alguns complicados) desafios, com problemões com os quais eventualmente teremos que lidar, bons projetos na cabeça e aquele inevitável otimismo que costumamos ter ao dar início a qualquer empreitada. Não tenho assim grandes pretensões, espero que os dias me sejam leves e que eu continue recebendo toda essa energia bacana que chegou até mim neste ano. E que eu possa continuar retribuindo com a minha própria. Um muito Feliz Ano Novo para todos nós!

O Queen faria 40 anos em fevereiro…

(há dez anos eu perdia um grande amigo. Há quase três, publiquei este post.)
***

… e se você estivesse por aqui agora, certeza de que arrumaríamos um jeito de comemorar, você jamais deixaria passar uma data dessas em branco. Talvez a gente marcasse um jantar na sua casa, e mesmo com aquele tanto de vinhos maravilhosos na cave, você sairia pra comprar outra garrafa, porque nenhum deles combinaria com o que você estava preparando. Aí a gente ouviria toda a sua coleção, e isso poderia levar a noite inteira, mas tudo bem, porque tinha os vinis, os CDs (inclusive aqueles das carreiras-solo), as gravações exclusivas que só os fãs com carteirinha do fã-clube como você tinham acesso, antes que o mp3 e a internet entrassem em cena, facilitando a nossa vida. E você me contaria todas as histórias de novo, todos os casos com todos os detalhes, aquelas coisas que só quem tinha lido todas as biografias, colecionado todos os artigos, assistido a todas as entrevistas, podia saber. Se estivéssemos aqui em casa, tentaríamos pela milésima vez cantar ‘My Melancholy Blues’ direito, mas eu nem me arriscaria na introdução do piano e iria me atrapalhar toda com a partitura como sempre e a gente morreria de rir e continuaria cantando sem acompanhamento mesmo, e aquele riso frouxo não combinaria de jeito nenhum com a fossa da música, mas aí é que estava a graça. Se você estivesse por aqui, a gente poderia cantar de novo ‘Guide Me Home’, você fazendo a voz do Freddie, eu faria a da Montserrat, porque já tem tempo que eu não canto essa música, na verdade desde que a frase “Guide me back safely to my home where I belong once more” ganhou um significado totalmente diferente pra mim, e por isso eu sempre paro antes dela. A gente pegaria a reprodução do quadro ‘The Fairy Feller’s Master Stroke’ que você me deu de presente – e que está pendurada aqui mesmo no escritório – e tentaria encontrar todos os personagens descritos na música. E você me faria contar outra vez sobre quando vi o Queen no Rock in Rio, em um distante 1985, e me diria mais uma vez que esse show você queria muito ter assistido (embora você tenha ido a tantos outros em tantos lugares). Você tentaria me convencer pela centésima vez de que os albuns depois de ‘The Game’ eram bacanas, eu te explicaria por que eu achava aquele lado mais pop meio chatinho, mas ambos concordaríamos que ‘Somebody To Love’ é a melhor música pra cantar bem alto no banheiro ou dentro do carro. E então terminaríamos a noite cantando ‘Seven Seas of Rhye’, aquela que decidimos que era a nossa cara. Isso tudo a gente bem que poderia fazer agora, se 2003 nunca tivesse existido e você ainda estivesse por aqui pra comemorarmos juntos esses 40.

Quase surreal

Foram quase três dias. Cinco protocolos de atendimento. Uma visita à loja, que não deu em nada. No final, na última conversa, me apareceu o Felipe do outro lado da linha. O Felipe resolveu o meu problema, mas só porque eu apelei para o “Eu vou fazer uma reclamação formal na Anatel se você me deixar esperando meio segundo que seja.” Funcionou. Sempre funciona. Aí eu fiquei feliz porque, né, cinco protocolos de atendimento e uma visita à loja mais tarde, eu finalmente tinha conseguido fazer o cancelamento da linha, e a saga deveria ter terminado ali. Mas, no sábado, a mocinha da operadora me liga:

– A senhora Mônica, por favor? (é claro que é gente do telemarketing, nenhum amigo em sã consciência me chamaria de ‘senhora’)
– Sou eu.
– Bom dia, senhora Mônica. Sou a Fulana, da operadora XYZ. Gostaria de estar falando com a senhora sobre o seu cancelamento.
– Algum problema?
– A senhora cancelou a linha por qual motivo?
– Olha, deve estar aí no sistema de vocês, eu já repeti essa história cinco vezes. Estou de mudança pro exterior. (é claro que eu não estou de mudança nem pro apartamento ao lado, mas imaginei que essa seria uma boa explicação para um cancelamento de linha telefônica. Mais definitivo do que isso, só por motivo de falecimento, mas é que eu preferia continuar viva)
Mas a senhora vai estar mudando em caráter definitivo?
– Fulana, né? Ô Fulana, não existem certezas nessa vida. Certo mesmo, de verdade, só duas coisas: que eu, você e todo mundo um dia vamos morrer e que, até isso acontecer, eu, você e todo mundo vamos pagar uma fortuna em impostos. Mas te digo que sim, é definitivo, pelo menos por enquanto.
– Temos uma oferta para fazer pra senhora – a senhora vai estar pagando apenas X reais por mês durante um ano, e com isso vai estar mantendo seu número atual.
– E por que raios eu ia fazer uma coisa dessas, se vou estar noutro país?
(ignorando minha pergunta) E, com mais Y reais, a senhora também vai estar tendo direito a TV a cabo e internet com velocidade de Z Mega.
– Querida (eu detesto usar ‘querida’, mas foi só o que me ocorreu pra não apelar para um ‘sua anta’), a operadora XYZ trabalha em outros países?
– Não, senhora Mônica. Operamos em todo o território nacional.
– Então você poderia por favor me explicar como é que vocês pretendem me garantir todos os serviços de telefone, internet e TV a cabo do outro lado do Atlântico (já que vai mudar, fia, vai pro outro lado do oceano, que é pro cabo não chegar de jeito nenhum), que é onde eu vou estar?
– Mas a senhora vai estar pagando um preço muito menor do que as assinaturas normais.
– Fulana, eu sei que vocês trabalham sob pressão. Não é fácil atingir as metas. Talvez o seu supervisor esteja neste exato momento bufando atrás do seu pescoço, querendo saber como você está trabalhando. E eu espero de coração que esta ligação esteja sendo gravada, que é pro pessoal do treinamento da operadora XYZ perceber que porcaria de treinamento eles estão dando pra vocês. Porque, francamente, não tenho nem palavras. (era pra eu completar ‘por favor, esfregue seus dois neurônios um no outro, quem sabe solta uma faísca e seu cérebro pega no tranco?’, mas achei que ela não iria entender). Eu não quero nada disso. Só quero continuar cancelada, como me prometeu o Felipe outro dia.
– Mas se a senhora vai estar mudando, vai ficar alguém no endereço?
– Acho que isso, querida (o ‘querida’ de novo…) não é da sua conta, nem da operadora XYZ. Vamos fazer o seguinte: vou contar até três e vou desligar. Se você contar junto comigo, a gente desliga juntas. Se eu for mais rápida, ‘vou estar desligando’ na sua cara. Combinado? Bora: 3… 2… 1… tuuuuuu…

Olha. Fica difícil manter o amor quentinho no coração quando aparecem criaturas assim na vida da gente, viu. Mais um naco da minha fé no cerumano desce o ralo.

Senhoritas daquela época

Outros Tempos 10015-2Senhoritas daquela época iam à missa com a mãe e a tia. Levavam sua Bíblia portátil (essa aí eu guardei de lembrança, foi da minha bisavó). Senhoritas daquela época tinham os cabelos impecavelmente cortados e penteados, cinturinha de pilão, e usavam vestidos rodados e escarpins de bico fino combinando com a bolsa, pura elegância. Em ocasiões especiais como essa da foto, os vestidos das senhoritas daquela época eram acompanhados de chapéu, luvinhas imaculadamente brancas e colarzinho de pérolas. Eram muito lindas as senhoritas daquela época. Mais linda ainda era essa senhorita da foto, que hoje sopraria mais uma velinha de parabéns.

Viver em comunidade

Então que temos vizinho novo nas imediações, um moço muito simpático e educado com seu cachorrinho fofo e simpático. Quer dizer. Isso até que ele (o moço muito simpático e educado) resolva sair de casa por qualquer motivo e por qualquer duração de tempo, porque aí ele (o cachorrinho fofo e simpático) começa a chorar e chorar e chorar quase ininterruptamente por horas a fio, com milimétricos e quase imperceptíveis intervalos de paz e sossego, que eu imagino sejam pra ele beber um gole d’água, recuperar o fôlego ou tirar um cochilinho de minutos. Pela manhã já não é uma boa ideia, mas os uivos de um cachorrinho fofo e simpático durante o dia adquirem contornos de som dolby stereo digital HD plus às duas da madrugada, quando a rua está mergulhada no mais absoluto silêncio. Por enquanto estou na fé de que isso seja passageiro e que o cachorrinho fofo e simpático está apenas sofrendo com a mudança de endereço, as baixas temperaturas da esquina do Morro dos Ventos Uivantes com Winterfell e uma eventual crise de PCA (Puta Carência Afetiva), e que brevemente ele vai entender tudo e vai dormir bonitinho como é de bom tom em todas as criaturas de hábitos diurnos. Mas vamos acompanhar o desenrolar dos fatos. Olha, viver em comunidade não é fáceol.

Phynos e educados

– Aqui é Gaaalo, %$@#*&!!! Chuuuuupa, suas *&/$@!!!
– Vai dormir, seu #!*&¨%!!!
– Cambada de +:*?&%$, vão todos tomar @+*$#*!!!
– Vai você, seu filho *¨%#@*!!!

Diálogo cordato e edificante trocado aos berros quase à meia-noite de uma quinta-feira (com todo mundo tendo que levantar cedo pra trabalhar e/ou ir pra escola no dia seguinte) entre vizinhos torcedores de duas facções – e seguramente morando longe um do outro na rua – após uma partida de futebol que, francamente, não me interessa a mínima. Vizinhos que, é de se supor, levando-se em consideração onde e como moram, são marmanjos bem nascidos e bem alimentados, e receberam boa educação de pai, mãe e escola. E ainda tem gente que acha esquisito eu não torcer pra time nenhum, achar futebol o fim da dinastia e ter cada vez menos paciência pra esse povo sem-noção. E não, eles não são exceção. Estão em número cada vez maior. E definitivamente não, isso não é ‘paixão’ pelo time. É estupidez mesmo.