Diferente, mas bem parecido

O ano era 1963. Enquanto olhava as imagens de Martin Luther King falando para centenas de milhares de pessoas em Washington DC durante a marcha pelos direitos humanos, um italiano amigo dos meus pais comentou: “É um absurdo o que estão fazendo nos Estados Unidos, esse preconceito contra os negros, toda essa violência, a discriminação…” Meu pai comentou que sim, era um absurdo mas que, pensando bem, os italianos do norte também discriminavam horrivelmente os do sul (embora sem a mesma violência explícita), faziam pouco deles e em geral consideravam a turma abaixo de Roma inferior a galera de Milão e, né, não se falava muito sobre isso por ali. Vira o italiano, claramente alterado: “Mas não, aquela é uma outra gente!!!”

Quer dizer. O caso é que é facinho apontar o preconceito dos outros. Enxergar o nosso próprio preconceito, admiti-lo e (de preferência) fazer alguma coisa a respeito, taí o grande desafio.
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Questão de matemática

Almoço de domingo com a família – e por família entenda-se todo mundo, mais tios, primos e agregados, a meninada em polvorosa, cada qual com um saquinho com aquelas moedinhas de chocolate (gente, são da minha infância, certas coisas grazadeus não mudam nunca). Mas só podiam abrir e comer depois do almoço, claro, que as mães zelosas deixaram as regras bem claras. Passado o almoço, lá foram os meninos dar cabo dos chocolates, e em cinco minutos já estavam numa animadíssima competição pra saber quem tinha comido mais moedinhas no menor espaço de tempo (quem nunca participou de um campeonato semelhante, que atire a primeira pedra). A menorzinha da turma disse que comeu três – embora três, sendo a idade dela, provavelmente era o único número de que conseguia se lembrar assim, no calor de uma disputa. O próximo contou seus papeizinhos na mão e orgulhosamente anunciou que tinha eliminado pelo menos uns cinco dinheiros. E assim sucessivamente, a contagem já chegando às centenas (que matemática de criança pertence a uma outra ordem de lógica), até que o garotinho de seis anos anuncia vitorioso: “Pois eu comi infinitas!”. Silêncio momentâneo, com os demais tentando processar aquela nova informação, mas o irmão dele, do alto de seus quase nove anos, e perfeitamente ciente do que infinito significaria num contexto de moedinhas de chocolate, retruca: “Comeu nada! Se você tivesse comido infinitas moedinhas, você ia estar mastigando até agora!!!”. Vitória aparente, mas efêmera. O pequeno contra-ataca, encerrando a discussão: “Infinitas menos uma!”.

Ouça sempre a sua mãe

Naquele 1962, meu pai, mãe e irmão mais velho embarcavam para a Itália, onde iriam morar por pouco mais de um ano. Primeira parada, Milão. Em cima da cama as malas abertas, pencas de roupas, casacos pro inverno, alguns brinquedos, ‘artigos de toucador’ (como diria o Roberto), chega minha avó com uma caixa de velas e outra de fósforos.

– Pra que isso, mãe?
– Nunca se sabe, vai que acaba a luz de repente, vocês ficam no escuro num país estranho com uma criança de colo?
– Mãe, a gente vai pra Milão, não é pra Mateus Leme (minha avó era de lá).
– Pois em Milão a luz também pode acabar, uai. Não custa colocar na mala, o pacote é pequeno.

Você desafiaria a sua mãe? Manda quem pode, obedece quem tem juízo, lá se foram o pacotinho de velas e o de fósforos devidamente embarcados para Milão. Viagem longa, chegam todos no hotel, cai uma tempestade. E o que acontece? Acaba a luz. Menos pra minha mãe, que abre a mala e diligentemente acende uma vela. Aliás, duas: uma pra iluminar o escuro, outra pra agradecer a minha avó.
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(postei este texto em 2010, aproveito o dia das mães pra relembrar…)

Mãe só tem uma, mas posts tem um monte!
Sábios ensinamentos das mães
Drummond e um poema de mãe
Mães e filhos

Fazendo sucesso

A pequena sai da escola no fim de um dia de intensa atividade e o pai é quem vai carregando a parafernália toda – mochilinha, merendeira, estojo do violino, sacola da natação – corredor do shopping afora. Uma bela hora pede uma mãozinha:
– Ô, mas é muita coisa pra eu carregar sozinho, hein? Me ajuda aqui.
Ela então, toda solícita:
– Pode deixar que eu levo o estojo do violino.
E antes que o pai dissesse qualquer coisa, emenda:
– É que quando eu passo as pessoas me olham e comentam “Ai, olha só que linda, ela estuda violino!”
Ganhar uma massagenzinha no ego de vez em quando e fazer sucesso com a galera – quem não gosta? A diferença é que criança é honesta e admite.
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Que nem gente

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Acho que seria um bocado mais fácil acreditar naquela história de Adão, Eva e tal e coisa se eu nunca tivesse ficado frente a frente com o Idi Amin. Não o ditador de Uganda, claro, mas o gorila do zoo de Belo Horizonte que morreu no começo do mês. Porque, olha, se aquele ali não é evidência indiscutível de que o senhor Darwin estava coberto de razão, não sei então o que pode ser. Eu já tinha visto o Idi diversas vezes em seu recinto, ele era o xodó de todo mundo que visitava o jardim zoológico, mas ficar a poucos passos dele e poder observar de perto os gestos, seu olhar, sua atitude, foi das coisas mais incrivelmente surreais que eu já vivi.

Eu estava curiosíssima para vê-lo mas ele, obviamente, não estava nem um pouquinho aí para a minha presença ali naquela tarde. Meu amigo biólogo tinha ido levar uma mistura de vitaminas e medicamentos para ele, que se recuperava no ‘hospital’ do zoológico após uma cirurgia, e foi assim que eu o encontrei deitado no chão da jaula, um braço cobrindo os olhos para proteger do sol como se estivesse fazendo a sesta. Ignorou por completo nossa chegada e só descobriu os olhos quando meu amigo, depois de chamá-lo pelo nome várias vezes, bateu a garrafinha plástica na grade. Aí a conversa foi outra. O bicho se pôs de pé rapidinho e veio andando na nossa direção, e foi então que eu pude ver como era enorme, mesmo caminhando nas quatro patas. Eu estava a uma distância segura da jaula mas imaginei que se ele resolvesse dar uma de Tarzan, ficar totalmente ereto e bater aquelas mãozonas no peito e soltar um grito, eu sairia correndo dali em velocidade recorde.

Mas o mais incrível não era seu tamanho ou a altura. Era como ele se parecia comigo. E com meu amigo. E com você e todo mundo. Eu sempre tive bicho em casa, estava acostumada com aquela história de ‘nossa, ele parece gente, entende tudo que eu falo’, mas de repente o Idi Amin levava essa frase a um outro nível. O jeito de olhar pra gente, os gestos, as expressões, os movimentos do corpo, tudo parecia estranhamente familiar, só faltou ele dizer ‘boa tarde, qual é o menu do lanche?’ Pois é, o lanche. Meu amigo tinha me avisado para não ficar muito perto da grade quando o gorila pegasse a garrafinha, porque aquela rodada era surpresa, tinha a vitamina que ele adorava E os medicamentos. Ele nunca sabia quando os medicamentos eram incluídos na receita, porque ele odiava. E, odiando, não tomava. O ritual era o mesmo: tomava alguns goles e, ao perceber o gosto do remédio, atirava a garrafinha longe. Geralmente ela caía no chão dentro da jaula, mas podia passar entre as grades ou espirrar pra todo lado, tudo era possível. Melhor não ficar muito perto. Idi pegou a garrafinha com as mãos (do tamanho de uma luva de goleiro), bebeu um tanto, percebeu o gosto e pá!, atirou a tal garrafinha com a maior força contra a parede do fundo da jaula. Olhou pra gente. Estava puto!

Veio andando na nossa direção, eu pensei ‘pronto, agora o bicho vai ter um ataque, King Kong feelings’. Parou do outro lado da grade, os olhos fuzilando, a testa franzida, a cara de poucos amigos. De repente, deu as costas pra gente, ficou contra a parede, cruzou os braços sobre o peito, baixou a cabeça. Gente, o Idi Amin emburrou! Que nem criança quando é contrariada. Não queria papo, nem olhava pro nosso lado. Meu amigo tentou argumentar, explicando que aquele remédio era pro bem dele (rá, coisa mais engraçada a gente conversar com um bicho daqueles como se fosse gente mas, né, é gente mesmo), o gorila nem aí pra nós, cabeça baixa, de vez em quando dava aquela olhada de rabo-de-olho e virava a cara pro outro lado. Ali estava e ali ficou, não arredou pé, não quis mais conversa. Me deu a maior dó ver aquela expressão de raiva e desaponto, mas deu também muita vontade de rir.

Meus amigos no zoológico diziam que o Idi Amin era assim, surpreendente, interessante, de personalidade. Se eu já fiquei triste, imagino como todo mundo ficou com a morte dele, e não só porque era a atração do lugar, o único exemplar em cativeiro na América Latina e tal, O Idi era um figuraça. Como diria meu pai, ‘um ser humano da melhor qualidade’.
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