Curtinhas – um post mimimi

tudo coisadoRá. Eu ando sumida, o blog juntando poeira e, quando resolvo aparecer, ainda é pra reclamar? Olha, tou boba de ver a paciência de vocês para com esta que vos escreve…

* “A edição desta obra contou com o trabalho, dedicação e empenho de vários profissionais. Porém podem ocorrer erros de digitação e impressão.” Bom, primeiro que uma obra que conta com o trabalho de vários profissionais não deveria incluir erros de digitação e impressão. E se ficasse só nisso, se fossem só umas coisinhas de nada, eu até daria um desconto. Mas, amiguinhos, já fazia um bocado de tempo que eu não lia um livro com uma tradução tão meia-boca (‘audience’ de um show de rock traduzida como ‘audiência’, sem falar nas expressões idiomáticas passadas ao pé-da-letra para o português), sentenças incompletas, erros básicos de ortografia (‘brexó’, gente, sério?), o mais que temido ‘haviam’ (em “Haviam tantas seringas…”), erros de concordância (“as malas começaram a serem feitas”), nomes errados nas legendas das fotos, e que diabos significa “Um pouco de atenção sussurada foi prestada”?, tudo isso mostrando que a coisa toda deve ter sido feita a toque de caixa. Lá pela página 80, resolvi parar tudo e recomeçar a leitura, dessa vez com uma caneta marca-texto amarelona para destacar as aberrações. Olha, se o livro não fosse interessante pelo conteúdo, te garanto que já teria atirado ele pela janela. Francamente, que tortura.

* Um lado chamando o outro de ‘coxinha’ e ‘elite’. O outro lado acusando o ‘um’ de ser um bando de aproveitadores vagabundos que só querem botar o burro na sombra e aproveitar bolsa-isso e bolsa-aquilo. Tou doida pra esse negócio de eleição acabar logo, pra eu poder tentar gostar das pessoas de novo porque ó, tá Soda, Fócrates.

* Uma coisa que me impressionou no debate ontem na TV Record (não, não assisti, vi os comentários e links hoje na internêta) foi ver o senhor Levy Fidelix falar aquela monstruosidade toda sobre os direitos de cidadãos como eu e você e na hora nenhum, eu repito, nenhum dos outros candidatos colocá-lo em seu devido lugar. Alguém sem medinho ali pra mandar um ‘shut the fuck up’, cadê? A indignação veio mesmo em tempo real só nas redes sociais. Que vergonha, senhores candidatos, que vergonha.

* Meu conhecimento sobre o mundo das artes (sobretudo sobre o que é pós-moderno e pós-tudo) é, reconheço, limitado e não avança muito além do gostei-não-gostei. Mas, gente, a moça vai lá e faz uma instalação na galeria de arte. Arte-invisível, ela chama. Você chega na frente da parede e tem um nada de mais ou menos dez metros de comprimento. Ou tem que desviar do meio da sala porque, né, tem uma escultura invisível bem ali. E o povo lá, achando o máximo. Só falta dizer que a trilha sonora é o John Cage e seu 4’33”. Sim, eu sei, existe todo um questionamento por trás dessas coisas, um mega ponto de interrogação sobre o que é a arte e talicoisa, tá, concordo, uma certa transgressão do que já está aí estabelecido, uma quebra de paradigmas e coisital. Ok. Mas daí a me pedirem pra fazer cara de conteúdo pra isso, sorry, rola não.

* A diferença, amiguinhos, é que numa democracia as pessoas podem ir às ruas elogiar e pedir a volta dos militares ao poder. Agora tentem fazer o caminho inverso procês verem no que dá.

* A Sabesp teimando em dizer pros paulistas que não há racionamento de água em São Paulo parece o personagem do Michael Palin tentando convencer o John Cleese de que aquele papagaio duro e seco que ele comprou não está morto, está só dormindo.

* Os algoritmos do Google e do Facebook são uma pândega. Você faz uma busca qualquer, sabe, aquela coisa que, estivesse numa loja, você diria pro vendedor “obrigada, tou só olhando”, e no instante seguinte você é bombardeada com zilhões de anúncios online oferecendo produtos similares. E a brincadeira continua durante semanas, mesmo depois de você já ter se esquecido completamente de que raios você estava procurando.

* Aí entra a primavera e o termômetro me diz que a temperatura está em 32 graus, com sensação térmica de 36. Olha, só não estou derretendo porque tá tão, mas tão seco aqui nas montanhas, que antes de me liquefazer eu já evaporo. Pensando seriamente em me mudar pra dentro da minha geladeira no verão.

* Mimimi de verdade. Uma cortesia do Dodô, o sábio, que me passou o link.

Ninguém me perguntou, mas…

Olha só, ninguém me perguntou, eu sei, mas eu acho assim, ó: todo mundo tem direito a opinião. Você pode ir pro lado que bem entender. Pode ser a favor do governo ou ficar com a oposição (embora eles sejam bem mais parecidinhos do que a gente gostaria que fossem). Pode acreditar que a democracia anda mal das pernas mas, né, ainda é o que temos para o almoço, ou achar que bom mesmo era quando os milicos chegavam derrubando tudo. Pode dar razão pra puliça ou pros manifestantes nas ruas. Você pode apoiar os israelenses ou os palestinos (embora não custe lembrar que a peleja é entre Israel e o Hamas), pode ficar putin com o Putin e os separatistas ou com o governo da Ucrânia. Pode ser fã do Obama ou achar ele um bocó. Você pode ter a fé que quiser e achar que a sua é mais legal, ou até preferir não ter fé nenhuma, pode achar que o seu time é o mais legal, pode achar funk ou sertanejo ou axé o máximo ou o fim da dinastia, pode ter a opinião que bem entender sobre todo e qualquer assunto, polêmico ou não. O que você não pode, ou pelo menos não deveria, de jeito maneira, é:
– guardar sua consciência crítica no fundo da gaveta e defender cega e incondicionalmente o ‘seu lado’, como se o ‘seu lado’ estivesse sempre e todas as vezes coberto de razão e o ‘outro lado’ sempre falando e fazendo merda, sempre sempre, e com esse raciocínio ser incapaz de encontrar furos nos argumentos do ‘seu lado’;
– ofender e desrespeitar quem pensa como o ‘outro lado’, como se o ‘outro lado’ nunca tivesse absolutamente nada a acrescentar à discussão e que, portanto, qualquer coisa que o ‘outro lado’ pensa está, por definição, completamente errado;
– achar que se alguém não escancara a sua opinião e entra nas discussões curtindo, comentando e compartilhando nas redes sociais (como se as redes sociais da internêta fossem as únicas redes sociais existentes e o único espaço para troca de ideias nesse mundo de modêus), isso necessariamente significa que a pessoa não tem opinião e é uma alienada, coitada.
Tá puxado, brazeeew.

Sem mimimi

Daí que uma bela hora todo Super Homem tem seu dia de kriptonita e sou acometida de uma avassaladora e inexplicável (bem, nem tão inexplicável assim, estou realmente precisando de férias) crise de mimimi-ninguém-me-ama-ninguém-me-quer. E, como soe acontecer (minha mãe adorava a expressão), nesses momentos a gente fica absurdamente insuportável até pra gente mesma, modosque é de bom alvitre manter uma distância segura dos outros que, afinal de contas, não têm nada que ver com a nossa rabugice e não têm a menor obrigação de nos aturar. Exatamente o que fiz, para melhores resultados.

Daí que leio nos jornais sobre o temporal que desabou na Argentina e deixou La Plata debaixo d’água, 350 mil pessoas afetadas diretamente pelas inundações. Envio uma mensagem para uma amiga argentina muito querida que mora lá e, dias depois, ela me manda um alô. Tudo bem com ela e a família, mas eles perderam tudo. A casa ainda está de pé, mas foram-se os móveis, as roupas, os utensílios, documentos, fotos, equipamentos; faça a lista, foi tudo. Com sorte, vão conseguir recuperar alguma coisa ao longo do tempo, e agora vem aquela fase longa e tediosa de tirar nova via dos documentos, consertar o que tem conserto, jogar fora o que não tem, conseguir ajuda oficial, retomar a vida.

Daí que eu enfiei a viola no saco e tomei tento, que mimimi tem hora e limite, boralá que PCA (Puta Carência Afetiva) tem data de validade. Não é a primeira vez que o Chefe lá em cima me dá uma lambada dessas pra ver se eu aprendo. Eu devo estar precisando fazer mais exercícios de fixação.

Mimimi

* Uma aluna ofereceu uma explicação plausível: “Isso é Mercúrio retrógrado, daí a comunicação fica meio travada, mas daqui a pouco passa.” Não sei se a informação procede, mas me parece uma justificativa tão boa quanto qualquer outra para essa minha recente falta de inspiração para escrever. Culpar o movimento dos planetas, ainda mais um assim, retrógrado, até que não é uma má ideia. Alunos acumulando aulas para fechar o semestre ainda na primeira quinzena, as compras de Natal, trânsito caótico nos mais variados horários do dia e da noite, festas e confraternizações de fim de ano quase diárias, eis dezembro como sempre foi, e em 2011 não seria diferente.

* Aquele abraço para o pessoal do meu banco, que abre a agência às 10 da manhã e às 10 e 5 coloca metade dos terminais de auto-atendimento em manutenção. Na segunda-feira depois do dia 10. A galera na fila quilométrica manda um beijão pra senhora mãe do gerente.

* Tem gente que aprende a pilotar avião, preparar um irrepreensível canard a l’orange, falar húngaro ou redigir um perfeito agravo de instrumento, mas é incapaz de digitar a senha pra desativar um alarme e logo depois digitá-la novamente para reativar o sistema. Como isso é possível, meus amiguinhos, principalmente nesses tempos incertos de ‘segurança é tudo’, é um mistério que até hoje não consegui desvendar.

* Ainda não entendi muito bem, mas a inspiração deve vir de algum game de computador. Eu lá na frente, na pista da direita, dou seta para entrar na da esquerda. Aí o caboclo que está na esquerda, mas pelo menos uns trezentos quilômetros atrás de mim, dá aquele gás na segunda marcha, desembresta e pisca o farol como se dissesse ‘você só entra nesta faixa por cima do meu cadáver!’ Me ultrapassa e logo em seguida ele faz o quê mesmo? Entra na pista da direita.

* Inception: minha operadora de celular fica enviando mensagens diariamente me perguntando se eu quero receber mensagens promocionais de empresas parceiras. Respondo?

* Uma hora o bate-boca vai chegar aqui, vai espiando. A grande polêmica nesta época do ano nos Istêitis não é a crise econômica de proporções hecatômbicas ou as eleições presidenciais que não estão longe, mas sim se num país de diversidade cultural e religiosa como aquele as pessoas deveriam desejar ‘Feliz Natal’ ou ‘Boas Festas’ umas pras outras. Olha, pode até existir uma discussão interessante e/ou relevante em algum lugar, questões que envolvem a laicidade do Estado (todos os credos ou nenhum?) e as escolhas individuais e tal e coisa, mas cerumano ficar de mimimi todo ofendidinho porque alguém desejou Feliz Natal a um não-cristão, olha, na minha opinião é muita, mas muita falta de louça pra lavar.

* E eu estou adorando todo o bafafá causado pelo livro-bomba que supostamente revela tudo sobre as privatizações na brasilândia no período do Fernandenrique. Olha, sou super a favor das investigações, desde as grandes licitações ao pagamento da conta da lavanderia, sempre e toda vez que houver uma suspeita, mas alguém realmente estava achando que as contas eram limpinhas e transparentes? E esse pessoal que circula por aí salivando de sastifação com essa história toda é ingênuo a ponto de achar que os últimos quase dez anos nestas plagas foram dominados por cidadãos corretos e de bem nas altas e baixas esferas do poder? Pois enquanto esquerda e direita ficam nesse mimimi de definições de nomenclaturas, a turma de sempre de todos os partidos deita e rola para garantir o caviar seu de cada dia.
^^^

Sem-educação ou sem educação?

Eu nem ia meter a minha mão nessa cumbuca, mas é que uma coisinha de nada chamou a minha atenção. Quando vi o line-up para o Lollapalooza pro ano que vem (tá vendo, Roberto Medina, é assim que a gente dá nome a festival de música pro pessoal não encrencar com ser ou não ser roquenrôu), me senti uma anciã. Da lista enorme de bandas, só conhecia – e assim mesmo, mal e porcamente – o Foo Fighters e o Arctic Monkeys. Os outros podiam ser nome de videogame, grife de roupa ou seita religiosa, pra mim dava no mesmo. Tá legal, alguns nomes brasileiros também não me eram estranhos, mas sinceramente não conheço nenhuma música. Ne-nhu-ma. Não fiquei chateada, primeiro porque sempre dá tempo de dar uma olhadinha ali no Iutúbi e xeretar os vídeos pra saber quem é quem; segundo porque, assumidamente, minha cultura de roqueira assídua ficou estacionada no album Achtung Baby, do U2. Isso foi em 1991, então lá se vão duas décadas. De lá pra cá, venho acompanhando uns e outros, mas nada muito sistemático, até porque rock e pop viraram uma bela de uma mistureba. Mas acho muito bom descobrir gente nova, talento grazadeus não falta por aí.

Aí veio o senhor Lobão esbravejando seu boicote ao festival (gostaria de ser solidária com a causa, mas com o Lobão encabeçando o protesto fica mesmo muuuito difícil), o Perry Farrell, organizador do festival, tentou se explicar e a emenda saiu pior do que o soneto. Dizer que o brasileiro não tem educação musical foi o que bastou pra galera pegar em armas e sair dando uma de ofendida, quem é o moço pra vir nos criticar? Então somos umas bestas mal educadas em matéria de música, justo o brasileiro, com toda essa ginga, malemolência e lalaiá?

Foi aí que o assunto começou a me interessar. É que, em inglês, education pode dar uma ideia um pouco diferente do que vemos em português. O termo está mais ligado ao aprendizado formal, escola, livros, ensinamentos da família, etc., do que a palavra educação, que a gente muitas vezes associa a boas maneiras, polidez, conhecimento informal. Não vi a entrevista em inglês, mas se Farrell disse musical education, olha, não adianta os esquentadinhos baterem o pé, porque ele está certíssimo. Educação musical formal não existe na brasilândia, a não ser para aqueles pouquíssimos que podem pagar professores e cursos, e mesmo assim tem muita gente que não passa do quem-quer-pão. Só agora o ensino de música passou a ser obrigatório nas escolas públicas, assim mesmo enfiado na disciplina de Artes (você se lembra das aulas de Artes na escola, né? Pois então). Tem um bocado de gente que é até contra educação musical formal, diz que ‘acaba com a criatividade da pessoa e embota’. Existem projetos sensacionais sendo desenvolvidos no país para tentar mudar isso, mas ainda estamos a léguas de ter música como parte do cotidiano da nossa formação de um modo geral. Se essa confusão foi um erro de tradução ou interpretação, desejo de criar polêmica ou sabe-se lá, a verdade é que ter musical education não tem nada a ver com gostar de música, conhecer bandas ou saber se comportar durante um espetáculo (algo que, incidentalmente, o pessoal daqui ainda tem que praticar e é muito).

Naturalmenete, há sempre a possibilidade de Farrell ter querido mesmo sacanear a gente e nos chamar de ignorantões. Meu pitaco é absolutamente linguístico, porque já vi muita tradução tropeçando nesses detalhes das línguas. Acho que as pessoas estão cada dia mais precisando dar uma diminuída no mimimi e prestar um pouquinho mais de atenção ao que o outro diz. Vai ver estão entendendo ‘Pires de Oliveira’ onde o outro apenas disse ‘pratinho de azeitona’.
***

Mimimi

Sabe uma coisa que eu acho que seria muito muito bacana mesmo? Se esse pessoal que se desarvora e se descabela e se ocupa de acompanhar passinho a passinho tudo o que fazem os Rafinhas Bastos e Giseles e Claudias Leittes da vida, dão pitacos, esperneiam e publicam verdadeiros manifestos sobre a decadência da nossa sociedade burguesa as we know it, se toda essa galera que dispende uma energia enorme vociferando, comprando brigas e batendo boca no mundo real e no virtual, e cria marchas contra isso e a favor daquilo, se todos esses ceresumanos tivessem o mesmo empenho e comprometimento na hora de protestar, sei lá, contra desmandos um tiquinho maiores e mais urgentes (não que humor, lingerie e axé não tenham lá sua importância, quem sou eu…). E não é por falta de assunto não, que o cardápio   é variadíssimo, sabe, tem um sem-número de histórias de milhões de dinheiros desviados dos ministérios A e B, tem juízes sendo assassinados, tem chefe da nação aproveitando a carona pra dar um pulinho ali pra conhecer a terra dos ancestrais e dar uma maquiada no passeio com desculpa de acordos bilaterais, tem presidente do Senado usando helicóptero da polícia como se fosse carro particular, achando isso a coisa mais natural desse mundo, enquanto o paciente fica na maca esperando o mesmo helicóptero para transportá-lo pro hospital, tem (e ainda vai ter mais) uma grana caprichada em jogo para ver se a infraestrutura de um evento mundial sai ou não sai do papel, e a gente sabe que vai sair, e os tostões vão entrar nos bolsos certos (ou melhor, errados), tem gente sendo assassinada só por causa de sua opção sexual ou condição social, enfim, tem tudo para todos os gostos, sem falar nas coisinhas cotidianas dessa nossa vidinha de modêus, tipo educação, saúde, segurança, trabalho, essas ninharias.

Desculpaê esse meu mimimi, mas é que me cansa um bocado ver a arrogância da patrulha que se importa muito com levar a sério o que acontece no mundinho do ‘entretenimento’, mas que pega leve com todo o resto, que sai por aí arrotando opinião como se fosse verdade e se comporta na base do ‘se não está comigo, está contra mim’ e ainda vem com a conversa mole de que não dá pra comprar todas as brigas. Concordo totalmente. Então olha o foco, minha gente, vamos tentar manter o foco.
***

Mimimi in Rio

Sei não, mas acho que a grande bobeada do senhor Roberto Medina foi ter inventado de dar o nome pro seu festival de música de Rock in Rio. Porque, né, ele deixou a bola quicando na área para os implicanates chutarem pro gol. Teve a turma que reclamou todas as vezes em que o palco foi montado fora do país (uaaaai, Rock in Rio em Lisboa?) e aquela galera mais barulhenta ainda, que acha um absurdo um festival de rock abrigar outros ritmos. Se o nome fosse algo como Lollapalooza ou Knebworth (que, diga-se de passagem, também é nome de um lugar), aposto que o auê não existiria por estas bandas.

Ok, Cláudia Leitte (ai, essa história de dobrar letra pra ficar mais chique ou atrair as vibrações positivas da numerologia, hein, eu acho uma graça…) está para o rock assim como o Metallica está para o axé. Mas desde que mantenham uma segura e saudável distância entre os fãs das duas correntes musicais, escalando as bandas pra tocarem em noites diferentes, não vejo o menor problema. Na primeira edição do Rock in Rio teve Ney Matogrosso e Ivan Lins, Moraes Moreira e Elba Ramalho, teve Al Jarreau e George Benson, e ninguém me convence que James Taylor e os B-52’s tinham alguma coisa de rock pra apresentar. Quem quis roquenrôu comprou ingresso pra ver Ozzy Osbourne, AC/DC, Scorpions e Iron Maiden (vi todos eles sem ter pedido, eu estava lá pra assistir Queen, Yes e Rod Stewart). Tirando que tinha cabelo ali que não devia ver xampu desde a década de setenta, sobrevivi aos dez dias de festival com poucos efeitos colaterais. Hoje eu mal dou conta de um show inteiro no batidão, então agradeço aos céus por ter feito essas coisas na hora certa…

O interessante é que esse nariz torcido e empinado vem muito mais da plateia do que dos músicos. Esses, espero, já aprenderam a seguir a cartilha do Louis Armstrong, para quem só existem dois tipos de música no mundo: a boa e a ruim. A galera da pesada acha o Ozzy o suprassumo da quintessência, e no entanto eis que esse senhor costuma adentrar o palco ao som imponente de Fortuna, Imperatrix Mundi, de Carmina Burana. Não vejo muita graça no Faith No More, o que não me impede de achar a voz do Mike Patton uma das coisas mais impressionantes que já ouvi na vida – o moço faz com ela o que bem entende. E aí o FnM resolve fazer um cover de Easy, do Commodores (sim, amiguinhos, é Lionel Ritchie na veia) ou uma versão genial de I Started a Joke (Bee Gees dos anos 60 e suas baladas com dose de açúcar capaz de botar a gente diabético) e os headbangers acham o máximo. Um dos grandes sucessos do Metallica se chama Whiskey in the Jar que é, quem diria, uma dessas músicas tradicionais irlandesas que o pessoal gosta de cantar bêbado nos pubs. Nuno Bettencourt é, sem qualquer sombra de dúvida, um dos grandes guitarristas da atualidade, e no entanto lá está ele tocando com a Rihanna (que os roqueiros abominaram) e fazendo seus solos decididamente rock’n’roll (dá uma olhada aqui pra você ver). No patropi a coisa não é muito diferente: Retalhos de Cetim é, na minha opinião, um dos sambas mais bonitos já feitos ever mas, né, Benito di Paula nem pensar – até vir o Zeca Baleiro e regravar e tcharân!, os descoladinhos passaram a achar tudo de bom. Roberto Carlos é coisa para as senhorinhas e senhorinhos que pagam muitos dinheiros para vê-lo no Canecão, aí vem o Jota Quest e faz o Além do Horizonte e de repente já não é brega gostar da música.

O que eu sugiro pra turma do roquenrôu e pra meninada do pop é isso: procurem conhecer o som que os outros estão fazendo. São só 7 notas musicais disponíveis, com seus respectivos bemóis e sustenidos, e um punhadinho assim de compositores realmente bons. Não dá pra ficar desperdiçando música boa, venha de onde vier. Deixem de mimimi e aprendam a curtir também o diferente.
***