Ninguém me perguntou, mas…

Olha só, ninguém me perguntou, eu sei, mas eu acho assim, ó: todo mundo tem direito a opinião. Você pode ir pro lado que bem entender. Pode ser a favor do governo ou ficar com a oposição (embora eles sejam bem mais parecidinhos do que a gente gostaria que fossem). Pode acreditar que a democracia anda mal das pernas mas, né, ainda é o que temos para o almoço, ou achar que bom mesmo era quando os milicos chegavam derrubando tudo. Pode dar razão pra puliça ou pros manifestantes nas ruas. Você pode apoiar os israelenses ou os palestinos (embora não custe lembrar que a peleja é entre Israel e o Hamas), pode ficar putin com o Putin e os separatistas ou com o governo da Ucrânia. Pode ser fã do Obama ou achar ele um bocó. Você pode ter a fé que quiser e achar que a sua é mais legal, ou até preferir não ter fé nenhuma, pode achar que o seu time é o mais legal, pode achar funk ou sertanejo ou axé o máximo ou o fim da dinastia, pode ter a opinião que bem entender sobre todo e qualquer assunto, polêmico ou não. O que você não pode, ou pelo menos não deveria, de jeito maneira, é:
– guardar sua consciência crítica no fundo da gaveta e defender cega e incondicionalmente o ‘seu lado’, como se o ‘seu lado’ estivesse sempre e todas as vezes coberto de razão e o ‘outro lado’ sempre falando e fazendo merda, sempre sempre, e com esse raciocínio ser incapaz de encontrar furos nos argumentos do ‘seu lado’;
– ofender e desrespeitar quem pensa como o ‘outro lado’, como se o ‘outro lado’ nunca tivesse absolutamente nada a acrescentar à discussão e que, portanto, qualquer coisa que o ‘outro lado’ pensa está, por definição, completamente errado;
– achar que se alguém não escancara a sua opinião e entra nas discussões curtindo, comentando e compartilhando nas redes sociais (como se as redes sociais da internêta fossem as únicas redes sociais existentes e o único espaço para troca de ideias nesse mundo de modêus), isso necessariamente significa que a pessoa não tem opinião e é uma alienada, coitada.
Tá puxado, brazeeew.

Anúncios

O Queen faria 40 anos em fevereiro…

(há dez anos eu perdia um grande amigo. Há quase três, publiquei este post.)
***

… e se você estivesse por aqui agora, certeza de que arrumaríamos um jeito de comemorar, você jamais deixaria passar uma data dessas em branco. Talvez a gente marcasse um jantar na sua casa, e mesmo com aquele tanto de vinhos maravilhosos na cave, você sairia pra comprar outra garrafa, porque nenhum deles combinaria com o que você estava preparando. Aí a gente ouviria toda a sua coleção, e isso poderia levar a noite inteira, mas tudo bem, porque tinha os vinis, os CDs (inclusive aqueles das carreiras-solo), as gravações exclusivas que só os fãs com carteirinha do fã-clube como você tinham acesso, antes que o mp3 e a internet entrassem em cena, facilitando a nossa vida. E você me contaria todas as histórias de novo, todos os casos com todos os detalhes, aquelas coisas que só quem tinha lido todas as biografias, colecionado todos os artigos, assistido a todas as entrevistas, podia saber. Se estivéssemos aqui em casa, tentaríamos pela milésima vez cantar ‘My Melancholy Blues’ direito, mas eu nem me arriscaria na introdução do piano e iria me atrapalhar toda com a partitura como sempre e a gente morreria de rir e continuaria cantando sem acompanhamento mesmo, e aquele riso frouxo não combinaria de jeito nenhum com a fossa da música, mas aí é que estava a graça. Se você estivesse por aqui, a gente poderia cantar de novo ‘Guide Me Home’, você fazendo a voz do Freddie, eu faria a da Montserrat, porque já tem tempo que eu não canto essa música, na verdade desde que a frase “Guide me back safely to my home where I belong once more” ganhou um significado totalmente diferente pra mim, e por isso eu sempre paro antes dela. A gente pegaria a reprodução do quadro ‘The Fairy Feller’s Master Stroke’ que você me deu de presente – e que está pendurada aqui mesmo no escritório – e tentaria encontrar todos os personagens descritos na música. E você me faria contar outra vez sobre quando vi o Queen no Rock in Rio, em um distante 1985, e me diria mais uma vez que esse show você queria muito ter assistido (embora você tenha ido a tantos outros em tantos lugares). Você tentaria me convencer pela centésima vez de que os albuns depois de ‘The Game’ eram bacanas, eu te explicaria por que eu achava aquele lado mais pop meio chatinho, mas ambos concordaríamos que ‘Somebody To Love’ é a melhor música pra cantar bem alto no banheiro ou dentro do carro. E então terminaríamos a noite cantando ‘Seven Seas of Rhye’, aquela que decidimos que era a nossa cara. Isso tudo a gente bem que poderia fazer agora, se 2003 nunca tivesse existido e você ainda estivesse por aqui pra comemorarmos juntos esses 40.

Phynos e educados

– Aqui é Gaaalo, %$@#*&!!! Chuuuuupa, suas *&/$@!!!
– Vai dormir, seu #!*&¨%!!!
– Cambada de +:*?&%$, vão todos tomar @+*$#*!!!
– Vai você, seu filho *¨%#@*!!!

Diálogo cordato e edificante trocado aos berros quase à meia-noite de uma quinta-feira (com todo mundo tendo que levantar cedo pra trabalhar e/ou ir pra escola no dia seguinte) entre vizinhos torcedores de duas facções – e seguramente morando longe um do outro na rua – após uma partida de futebol que, francamente, não me interessa a mínima. Vizinhos que, é de se supor, levando-se em consideração onde e como moram, são marmanjos bem nascidos e bem alimentados, e receberam boa educação de pai, mãe e escola. E ainda tem gente que acha esquisito eu não torcer pra time nenhum, achar futebol o fim da dinastia e ter cada vez menos paciência pra esse povo sem-noção. E não, eles não são exceção. Estão em número cada vez maior. E definitivamente não, isso não é ‘paixão’ pelo time. É estupidez mesmo.

Ouça sempre a sua mãe

Naquele 1962, meu pai, mãe e irmão mais velho embarcavam para a Itália, onde iriam morar por pouco mais de um ano. Primeira parada, Milão. Em cima da cama as malas abertas, pencas de roupas, casacos pro inverno, alguns brinquedos, ‘artigos de toucador’ (como diria o Roberto), chega minha avó com uma caixa de velas e outra de fósforos.

– Pra que isso, mãe?
– Nunca se sabe, vai que acaba a luz de repente, vocês ficam no escuro num país estranho com uma criança de colo?
– Mãe, a gente vai pra Milão, não é pra Mateus Leme (minha avó era de lá).
– Pois em Milão a luz também pode acabar, uai. Não custa colocar na mala, o pacote é pequeno.

Você desafiaria a sua mãe? Manda quem pode, obedece quem tem juízo, lá se foram o pacotinho de velas e o de fósforos devidamente embarcados para Milão. Viagem longa, chegam todos no hotel, cai uma tempestade. E o que acontece? Acaba a luz. Menos pra minha mãe, que abre a mala e diligentemente acende uma vela. Aliás, duas: uma pra iluminar o escuro, outra pra agradecer a minha avó.
***

(postei este texto em 2010, aproveito o dia das mães pra relembrar…)

Mãe só tem uma, mas posts tem um monte!
Sábios ensinamentos das mães
Drummond e um poema de mãe
Mães e filhos

O tuíte

Não é do meu feitio ficar reciclando post, mas é que hoje eu me lembrei disso aqui. E dela.

*******

Eu não atendo telefone durante as aulas. Já passava das nove da noite quando eu peguei meu celular e vi: cinco ligações não atendidas. Do celular dela. Do celular do pai. Do da mãe. Do telefone de casa. Alguma coisa devia ter acontecido pra ela me ligar 5 vezes em menos de 20 minutos, ela que geralmente escolhe conversar comigo pelo Facebook e pelo Twitter, que é como qualquer adolescente normal e sadio conversa com qualquer outro ser deste planeta. Ela atendeu e, por um momento, eu não sabia se ela estava rindo ou chorando; pela respiração um pouco ofegante, devia estar pulando e falando ao mesmo tempo, hábito que tem desde muito pequenininha. O pai disse que na última meia hora ela tinha ido do risador frouxo às lágrimas e de volta, mas ele também estava morrendo de rir. ‘Mona, ele me respondeu! Eu postei uma mensagem no twitter e ele me respondeu! Ele agora sabe que eu existo!’

Ele, no caso, é o ídolo-mór da sua vida até aqui, o líder da banda que ela ama e venera e cujas músicas sabe de cor, junto com inúmeros detalhes da vida de todos os cinco integrantes. E o caso tinha sido bem esse mesmo, ela postou uma mensagem inocente no twitter e o moço, que normalmente não é de sair respondendo ninguém, deu um RT (algo como ‘copiar e colar’ na linguagem do twitter) e adicionou um comentário curto e simpático. E foi o que bastou para transformá-la em instant celebrity em sua escola e entre as muitas outras fãs que seguem a banda virtualmente. Por um momento, um segundozinho à toa, ela tinha estabelecido uma conexão real com seu ídolo, muito mais do que qualquer garota poderia imaginar que um dia fosse acontecer de verdade. Ele nem notou isso tudo, claro, não faz a menor ideia. Mas pra ela tinha sido o mundo.

E eu fiquei de cá rindo e matutando que hoje, já bem longe da minha adolescência, eu não tenho ídolo nenhum que eu ame e venere e para quem eu mandaria uma mensagem e de quem esperaria ansiosamente por uma resposta. E pensei que, no meio de todo esse turbilhão de crises e problemas pra resolver e contas pra pagar, é bom, é mesmo muito bom pegar carona na adolescência dela por um instantezinho só e ter 13 anos de novo.

:(

Uma tragédia como a de ontem na boate em Santa Maria/RS deixa meu coração miudinho e a alma apertada. Ninguém deveria sair de casa num sábado à noite pra se divertir e morrer de maneira tão estúpida. Nenhum pai/mãe deveria ter que passar pela dor de enterrar seu filho ou filha assim. Triste é saber que uma tragédia dessas não é a primeira. Também não será a última. Aqui em BH algo idêntico aconteceu no final de 2001, também um incêndio causado por sinalizadores no palco, também saídas de emergência insuficientes e trancadas, também um número elevado de vítimas, quase todas jovens. Lembranças do que vi naquela época me acompanham até hoje e me fizeram mudar algumas tantas coisas na minha vida. Que essas famílias encontrem paz e serenidade para enfrentar tudo isso.